Sérgio Adriano H na Fábrica de Arte Marcos Amaro

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Sergio Adriano H, Fábrica de Arte Marcos Amaro, registro de Neri Pedroso .

 

 

A obra de Sérgio Adriano H é uma das mais contundentes no cenário contemporâneo da arte afro-brasileira. De modo substantivo, procura refletir sobre os danos que o racismo estrutural vem secularmente causando aos negros e negras do Brasil. São várias as estratégias a que o artista recorre para dar expressão estética a sua indignação ética. Em algumas delas seu próprio corpo é acionado e oferecido nu em performances em que discute a coisificação de homens e mulheres na história presente e passada dos herdeiros da diáspora afro atlântica no País. Esses trabalhos às vezes transbordam as questões étnicas, já que o artista é um militante solidário a outros grupos oprimidos pelas circunstâncias deletérias que são próprias ao capitalismo periférico que nos aflige. Conforme a estratégia adotada podemos observá-lo manipulando meios eletrônicos, como no caso da obra “Nasceu Preto, Viado e Pobre” ou, valendo-se de fazeres consagrados pela sua ancestralidade negra, como no bordado presente à obra “Sonho”. Em qualquer dos casos, ele obedece a uma lógica que torna explícita uma sensibilidade que tem algo de dadaísta, sem dúvida irônica, mas corrosiva nas críticas que formula ao racismo e a heteronormatividade que formata os discursos excludentes e preconceituosos da branquitude. Mestre em filosofia, Sérgio Adriano tem feito uso frequente da palavra escrita, e talvez não seja arbitrário remetê-lo ao universo da norte americana Jenny Holzer (1950) principalmente na série “Truisms” (Truísmos), mas também em outras fases em que a artista assume uma posição mais abertamente política.

 

Sérgio Adriano procura observar e pesquisar os códigos da linguagem artística que eventualmente adota na intenção de melhor expressar sua mensagem e alcançar desse modo a sensibilidade e inteligência do público. As obras “Nasceu Preto, Viado e Pobre”, “Deve Ter Feito Algo Muito Grave na Outra Vida”, “Sonho” e “Brasil, Brasileiro” dão prova disso. 

 

A palavra tem poderes, e o ato de ler e escrever, como nos ensina o mestre pernambucano Paulo Freire (1921-1997) são atos políticos. Por isso também os objetos que contém palavras são de interesse do artista que frequentemente faz uso de livros como suportes da sua reflexão e realização artística. A palavra sozinha ou as frases que elas compõem, ganham outra camada quando aplicadas, por exemplo, sobre roupas brancas de bebês, ou quando são bordadas solitárias num modesto pano de chão. Essas peças, carregadas de um sentido incorporado pela função que elas desempenham, por meio da estratégia adotada pelo artista, trazem à memória sua funcionalidade que é repercutida e revista a partir das palavras impressas ou bordadas. Se os negros, negras, os indígenas e os que compõe o grupo LGBTQIA+ são tornados coisas, para serem descartados, os objetos são humanizados através da operação que o artista realiza e, assim, a crueldade e a covardia inerentes ao racismo e a homofobia ficam escancaradas quando vistas na roupa de bebês ou na capa recortada de livro sobre arte brasileira.

 

 

Uma das mais preciosas obras do Museu de Arte Sacra da Cidade de São Paulo, e um dos maiores patrimônios artísticos da cidade é uma escultura em madeira policromada realizada por ninguém menos que Antônio Francisco Lisboa, alcunhado o “Aleijadinho”. Trata-se de uma extraordinária representação de Nossa Senhora das Dores, nela, como reza a tradição, Aleijadinho projetou a figura de uma mulher que com o coração sangrento transpassado por várias adagas tem as mãos cruzadas em piedosa oração pelo Filho, torturado e morto na cruz. Como sabemos, Antonio Francisco Lisboa viveu um cotidiano no qual a violência escravagista reinava, deve ter conhecido a dor da mãe escravizada, esse sofrimento e violência podem estar expressos nessa obra magnifica. Ora, é também da dor das mães que perdem suas crianças para o racismo e a homofobia, que mutila autoestimas, interdita o acesso à felicidade e liquida vidas através das famigeradas “balas perdidas” que de perdidas parecem não ter nada, já que encontram sempre os mesmos alvos. Sérgio Adriano H investe contra o racismo estrutural, o racismo recreativo (que se quer inocente), assumindo um “ativismo” ou um “artivismo” que justificam o reconhecimento e a atenção que a FAMA Museu lhe empresta.

 

FAMA, ou Fábrica de Arte Marcos Amaro, criada em 2018, é uma instituição promove ações de estímulo ao desenvolvimento da arte contemporânea brasileira através de editais como o que agora contempla o artista negro de Joinville Sérgio Adriano H. Antes dele, 29 relevantes nomes de artistas afrodescendente estavam presentes ao acervo da FAMA Museu. Entre eles, Rubem Valentim, Sonia Gomes, Emanoel Araújo e Antônio Francisco Lisboa (1738-1814), o “Aleijadinho”. Portanto, a exposição “Não Consigo Respirar” reveste-se de interesse ainda maior já que a instituição, confirmando seus valores, integra o grupo de instituições culturais que atualmente estão empenhadas em tornar seus acervos mais plurais no que respeita à sua diversidade racial e de gênero.

 

Claudinei Roberto da Silva – curador

 

 

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Sobre a importância de se combater o racismo estrutural no Brasil, Adriano explica: “O racismo está embutido em falas habituais do cotidiano, “serviço de preto”, “preto de alma branca”, “a coisa tá preta”, e visto com naturalidade.
Porque Negros sofrem Racismo TODOS os dias em TODOS os lugares, 24h por dia. Como estamos nos posicionando no Brasil e no Mundo contra o RACISMO? Você precisa saber: Seu silêncio MATA! É preciso investigar o passado histórico colonialista escrito por homens brancos e anular os apagamentos propositais da construção da cultura e imagem negra no Brasil, uma história da qual meus antepassados não participaram com palavras, mas sim com a mão de obra forçada na escravidão. Escravidão que ainda não acabou, simplesmente se transformou. Porque Negros como eu nascem sem voz, sem ouvir, sem poder pensar, pelo simples fato de “ser Preto”. Um corpo sem direito à palavra.
O momento atual é de provocar o pensamento, fomentar perguntas sobre o que “achamos” que já não existe mais. O quilombo nunca terminou. O quilombo agora é invisível. Só vê quem sente.
A luta é de muitos. A luta é minha, sua. É nossa.
SER é muito mais que existir!”