REDE CHOQUE apresenta: Auá Mendes

00 - retrato da artista

Créditos do retrato: Davi Efronito

 

Auá Mendes é a artista apresentada nessa semana, dentro do programa de parcerias da Rede Choque, com destaque para nossos parceiros de Florianópolis: o Armazém e Coletivo Elza. A curadora convidada para nos apresentar as artistas do Armazém e Coletivo Elza é Juliana Crispe.

 

Auá Mendes é artista visual, travesti, Manauara do Amazonas, que tem como atravessamentos para sua produção, trazer as relações desse corpo no mundo, um corpo não-binário, indígena, preto, que vive em uma sociedade que oprime e mata as diferenças e os corpos/vidas ditas “não normativas”.

Segundo Auá, suas obras são “fragmentos do que não me cabe, do que eu preciso externalizar, do que quero extrair de mim, do meu autoconhecimento, do que vivo, do meu entendimento de corpo território que eu carrego, entendendo minhas cicatrizes e feridas abertas, de que elas têm história e precisam ser faladas, do mais íntimo.”

Seu posicionamento retoma o seu espaço de fala que é massacrado pela cisnormatividade

Hegemonicamente branca. Utiliza suas obras como ferramenta de fala e política, do corpo marginalizado preto, indígena e transvestigênere.

Pintora, fotógrafa, graffiteira, artista digital, trabalha com outras linguagens artísticas, por meio de suportes dimensionais e tridimensionais, analógicos, digitais. Auá faz da arte lugar de comunicação com o mundo, a necessidade de comunicar transborda a fala, ganha outras diversas maneiras de interrogar através e com a Arte.

Para Auá: “No meu trabalho eu penso trazer mais a existência dos corpos marginalizados como um elemento natural e não como uma existência necessária, pois hoje em dia estamos sempre nessa batalha sobre ocupar os espaços que são nossos. Eu quero que no futuro, essa obrigação de procurar o espaço de fala não seja mais necessária, pois estaremos nos espaços que são nossos”

O processo de compreensão de seu corpo é objeto de experimento e ferramenta de comunicação daquilo que quer, ou não, comunicar. Ao falar sobre os corpos marginalizados, sendo o seu próprio corpo ou outres, aquele que existe e resiste em meio às muralhas da ignorância, do preconceito e do desrespeito, e por meio disso Auá sensibiliza os olhares para a reflexão do corpo como casa em construção, espaço de mudança e aprendizagem. A arte e a diversidade de um corpo que pode se perpetuar na não-binaridade, na fluidez do gênero, rompendo a rigidez dos contornos físicos e sociais.

“Meu corpo é minha voz, é minha casa, é minha história, é meu território. Compreensão que se constrói cada vez que mergulho em mim mesma, entendimento que os livros não me contaram. Mas foi algo que eu construí.   A Intolerância, a diversidade de gênero e a orientação sexual não é um golpe novo, pois tão inconseqüente como foram e são, a construção da branquitude registrou as atrocidades que fizeram, desde muito cedo, com nós, povos originários, como o caso de Tibira, indígena tupinambá assassinado na tentativa de “purificar a terra do abominável pecado da sodomia”. Porém, já passou do tempo que os colonizadores do passado e do presente irão controlar a existência e subjetividade do indígena através dos nossos corpos. Pois compreendo e entendo que, em uma ótica de renúncia, a ideia do “objeto colonizado”, o grito que faço sobre meu corpo indígena e travesti transcende a diversidade de gênero e orientação sexual. Citando Estevão, acaba sendo um grito de independência, de liberdade, de anticolonização que também passa pelos corpos, desejos e afetos. Então, é deles tentarem se ‘ressenhoriarem’ de si, eles tentarem voltar a ser donos de todo esse complexo que é o corpo, emoção, sentimento, afeto e desejo. É uma forma de refutar não só essa imposição colonial histórica sobre corpos e as almas deles, mas também uma forma de se afirmarem coletivamente contra a enxurrada de coisas que vem acontecendo recentemente no tocante à própria política indigenista. Portanto, falar de mim, é falar das diversas de nós que são silenciadas, mortas, sexualizadas por essa construção colonial que tentam perpetuar.”

Nas séries aqui apresentadas, temos os pensamentos e ideias sobre o espaço de retomada de corpos nas  pluralidades de existências. Seus trabalhos nos apontam a importância dos espaços e protagonismos das diferenças, da importância da descolonização de corpos indígenas, negras, não-binárias. Auá incorpora sua existência como corpo político para produzir arte falando da relação entre corpos, em traços singulares e marcantes, sua poética traz uma marca identitária inconfundível. Corpos que transbordam e ecoam, buscam seus espaços negados, obras que mostram a existência como objeto de fala e questionamento, pesquisa que resulta da conexão com sua ancestralidade e do fortalecimento de sua identidade fluída, construída por afecções.

 

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Auá Mendes Sem título, 2020 Grafite Local Hostel 494 em Belém – PA

 

 

02.

Série Brasil Indígena, 2020. Arte Digital. Tamanhos Variados

 

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Série Indígena Transfurismo, 2020. Arte Digital. Cartaz, tamanho 30x20cm Série presente no acervo do Projeto Armazém em formato de cartaz, 30x20cm

 

 

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Série Indígena Transfurismo, 2020. Arte Digital. Cartaz, tamanho 30x20cm Série presente no acervo do Projeto Armazém em formato de cartaz, 30x20cm

 

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Série Indígena Transfurismo, 2020. Arte Digital. Cartaz, tamanho 30x20cm Série presente no acervo do Projeto Armazém em formato de cartaz, 30x20cm

 

 

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Série Indígena Transfurismo, 2020. Arte Digital. Cartaz, tamanho 30x20cm Série presente no acervo do Projeto Armazém em formato de cartaz, 30x20cm

 

 

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Série Indígena Transfurismo, 2020. Arte Digital. Cartaz, tamanho 30x20cm Série presente no acervo do Projeto Armazém em formato de cartaz, 30x20cm

 

 

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Série Indígena Transfurismo, 2020. Arte Digital. Cartaz, tamanho 30x20cm Série presente no acervo do Projeto Armazém em formato de cartaz, 30x20cm

 

 

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Série Indígena Transfurismo, 2020. Arte Digital. Cartaz, tamanho 30x20cm Série presente no acervo do Projeto Armazém em formato de cartaz, 30x20cm

 

 

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Série Indígena Transfurismo, 2020. Arte Digital. Tamanhos variados Série presente no acervo do Projeto Armazém em formato de cartaz, 30x20cm

 

 

Auá Mendes, nasceu em 1999. Indígena Mura, Artista, Travesti Manauara do Amazonas, formada em Tecnologia em Design Gráfico pela Faculdade Metropolitana de Manaus – FAMETRO atualmente é Mestranda Profissional em design pela Universidade Federal do Amazonas – UFAM. Designer gráfica, ilustradora, grafiteira, performer, maquiadora artística e fotógrafa experimental.

 

 

00A - retrato da artista

Créditos do retrato: Patrick Bisteca