REDE CHOQUE apresenta: Raquel Stolf

00 - RaquelStolf_FeiraTijuana-2018

Créditos: equipe Feira Tijuana de Arte Impressa – SP, 2019

 

Raquel Stolf é a artista apresentada nessa semana, dentro do programa de parcerias da Rede Choque, com destaque para nossos parceiros de Florianópolis: o Armazém e Coletivo Elza. A curadora convidada para nos apresentar as artistas do Armazém e Coletivo Elza é Juliana Crispe.

 

Adentrar nas obras de Raquel Stolf é estar imersa e flutuante em múltiplas camadas, escutas, silêncios, névoas, muitos caminhos possíveis em uma rede que se re-desdobra sempre para muitos foras, para muitos infinitos e constelações. Sua produção são rizomas, expansões conectáveis, ao mesmo tempo que, também nos chama para uma interioridade e um deslizamento de territórios.

A imagem, a sonoridade, a escrita, o silêncio, o em branco e uma atenção à escuta são forças que atravessam sua produção em que a palavra parece ser o dispositivo que engendra uma máquina que opera pela linguagem em distintas possibilidades e intersecções. A artista investiga desde os anos 90, relações entre conceitos de silêncio, processos de escrita e situações de escuta na construção de proposições e publicações sonoras e seus desdobramentos em instalações, intervenções, ações, vídeos, filmes, fotografias, textos e desenhos.

Desde 2001 as publicações sonoras produzidas por Raquel Stolf movem reflexões em sua produção, sendo referência para pensarmos as investigações deste campo nas artes visuais no Brasil, desenvolvendo produções bem como estratégias para circulações destas publicações sonoras, como Lista de coisas brancas – coisas que podem ser, que parecem ou que eram brancas (2000-2001), FORA [DO AR] (2002-2004), Assonâncias de silêncios [coleção] (2007-2010), SOU TODA OUVIDOS (2007-2019), entre outras publicações sonoras que participaram de coletivas e no desenvolvimento de oficinas dentro e fora das universidades, como professora-propositora.

Segundo Raquel: a construção de publicações sonoras envolve tanto relações sinuosas entre texto e som (presente materialmente ou não), como implica relações entre disco e livro, entre o disco enquanto trabalho artístico e o livro/publicação de artista como obra e/ou sequências de espaço-tempo (Carrión, 2011). Em A nova arte de fazer livros, Ulises Carrión aponta que no livro enquanto volume, “o espaço é a música da poesia não cantada” (2011, p.25), numa referência à poesia concreta e visual. Ou seja, a superfície física, real e concreta da página ressoa e trama uma duração, numa relação intersubjetiva com o leitor-ouvinte. Como também sublinha Anne Moeglin-Delcroix (2006), a prática do livro de artista implica uma “indissociação entre o assunto de um livro e seu modo de apresentação livresco, entre a significação e a sua manifestação, (…) em que o livro não tem uma forma, mas é uma forma.” (2006, p.85, trad. nossa) E assinala que o livro de artista é capaz de conservar os vestígios de outras atividades artísticas intermediáticas, pressupondo assim constituições e características heterogêneas.

Assim, demarcar a importância de suas investigações tanto como artista, quanto como professora-pesquisadora torna-se necessário para desdobramentos e contaminações presentes na formação de muitos artistas contemporâneos.
Com uma produção ativa como professora-artista-pesquisadora, Raquel tem um percurso amplo de exposições-oficinas-conversas em ações individuais, bem como coletivas em instituições no Brasil e também em outros territórios como na América Latina, no continente Americano e Europeu.

Como uma partitura em coexistência, sua produção retoma temporalidades de seu processo como laboratórios em construções, que ações-mudanças produzem diferenças em seus alargamentos, articulações e ressonâncias, mas também trazem especificidades para cada trabalho em tipologias e inventários que nos fazem criar ecos dentro dos nossos labirintos internos, atravessando-nos enquanto espectadores, numa parada de tempo, na ausência do aceleramento, em situações de escutas que nos fazem pairar como nuvens.

Numa investigação que nos propõe ouvir os micros de nós mesmos, do ordinário como potência criadora que propõe retirar das coisas ao redor, dimensões flexíveis como Infraleves propostos por Duchamp, em um conjunto de notas que nos afectam pelos aspectos sensoriais, sensíveis, de dimensões mínimas porém de complexas composições que retomam dos breves acontecimentos, intensidades que reverberam e propagam por quem se deixa tocar pelo despretensioso, pelo vazio, pelo ruído, pela palavra, pela escuta, por modulações que ecoam a suspensão e o fora para dentro.

1- Stolf, Raquel. PÁGINA GRAVADA. Revista Interdisciplinar Internacional de Artes Visuais, UNESPAR. Junho de 2016. In: periodicos.unespar.edu.br

 

 

 

01 B -URGENTE-detalhe2_raquelstolf.

 

01A - urgente_raquelstolf2

Urgente, 2005-2010. Cartões carimbados distribuídos em diferentes situações, em mãos ou sobre mini-prateleira branca. Tiragem: infinita. Trabalho presente no acervo do Projeto Armazém.

 

 

 

 

 

 

02 -60silênciosempilhados-Raquel-Stolf-2014.

60 silêncios empilhados, 2010-2014. Proposição sonora e pôster impresso, que também integram a publicação recibo – edição pôster, 2014\2015, edições Traplev Orçamentos. Tiragem: 1000 exemplares. Trabalho presente no acervo do Projeto Armazém. Para escuta: https://soundcloud.com/raquelstolf/60silenciosempilhados

 

 

 

 

03 A -detalhe_gostoquandoescutoaescrita_raquelstolf

 

03 B -escutoaescritafora_raquelstolf

 

03 C -gostoquandoescutoaescritadentro_raquelstolf

Gosto quando escuto a escrita, 2009-2010. Proposição construída a partir de frase dita pelo escritor Renato Tapado, durante uma conversa num café sobre nosso “quase-livro” e sobre o afeto por cadernos, cadernetas e blocos de anotações. Um pequeno folheto foi construído como fac-símile (em miniatura) de duas páginas e da capa de um caderno de notação musical, trazendo frases por mim manuscritas. Dimensões: 13 cm x 9 cm (fechado), 26 cm x 9 cm (aberto). _Gosto quando escuto a escrita teve inicialmente uma tiragem de 2000 exemplares, sendo proposto e veiculado como encarte do livro Cadernos de desenho, um projeto de exposição e publicação, com curadoria e organização de Aline Dias, Julia Amaral e Ana Lúcia Vilela (Florianópolis, Corpo Editorial, 2011). Trabalho presente no acervo do Projeto Armazém.

 

 

 

 

04 - diantedomar_silênciomudo_raquelstolf

Diante do mar, 2017. Múltiplo: placas indicativas de acrílico. Dimensões: 20 x 40 cm. Tipografia: Glacial Indifference. Edição: céu da boca. Tiragem: 10 exemplares. Durante a leitura de um fragmento do poema Diante do mar, de Cruz e Sousa, encontro outra espécie de silêncio – Vi tudo nublado, tudo, / Céus e mares e horizontes; / E sobre a linha dos montes / Cair o silêncio mudo. Um silêncio impenetrável, que pausa, escuta e precipita em modo de espera. _Trabalho apresentado na exposição DIZER E VER CRUZ E SOUSA, Museu Histórico de Santa Catarina – MHSC, Florianópolis.

 

 

 

 

05 A -esse-este_raquelstolf.

 

05 B -esse_este_raquelstolf

esse/este, 2013. 2 impressos com textos. Edição: céu da boca. Tiragem: infinita. 30 cm x 30 cm (cada). Trabalho presente no acervo do Projeto Armazém.

 

 

 

 

06 A -marparadoxo-vista_RaquelStolf.

 

06 B -marparadoxo-contracapa_RaquelStolf.

 

 

06 C -marparadoxo_raquelstolf_detalhe1

 

06 D -notas-desenhos-silenciocolapsante

06 E -Marparadoxo_RaquelStolf_tipologias-notas-desenhos

 

06 F -marparadoxo_raquelstolf_detalhe5

mar paradoxo, 2013-2016. Publicação sonora (100 silêncios costeiros + 100 silêncios empilhados): 2 CDs de áudio com material impresso. Projeto gráfico: Raquel Stolf e Anna Stolf. Gravação e edição: Raquel Stolf. Apoio (pesca de silêncios): Helder Martinovsky. Masterização: Luiz Roque Bezerra. Duração: 101 minutos. Tipografia: oxygen, glacial indifference, 20 db. Edição: céu da boca e editora Nave. Tiragem: 500. _Para escuta da publicação mar paradoxo na rede: https://soundcloud.com/marparadoxo. Trabalho presente no acervo do Projeto Armazém.

 

 

 

07 A -soutodaouvidos-raquelstolf-2007soutodaouvidosOK-ane#34F083.cdr

07 C -SOUTODAOUVIDOS-versão-3-2007-2011_raquelstolf

SOU TODA OUVIDOS, 2007-2019. Cartões-panfletos impressos, distribuídos em diferentes situações, propondo cruzamentos e desvios entre situações de leitura, fala e escuta, através de ligações telefônicas. Projeto gráfico: Anna Paula Stolf e Raquel Stolf. Edição: céu da boca. Tiragem: 1.500 a 2.000 exemplares (cada versão). _SOU TODA OUVIDOS abrange sete versões de cartões-panfletos, produzidas entre 2007 e 2019. São distribuídos tanto em situações cotidianas, como em palestras, conversas, publicações e em situações dentro de espaços expositivos. Trabalho presente no acervo do Projeto Armazém.

 

 

 

08 A - locuções-inesperadas_cartaz_raquelstolf

 

08 B - locuções-inesperadas_raquelstolf.

Locuções inesperadas. 2017-2019. Cartazes e camisetas, a partir do exercício de escrita “expressões inesperadas” (Oulipo). Dimensões (cartazes): 30 cm x 40 cm. Tiragem: 250. Dimensões (camisetas): P, M e G. Tiragem: indefinida. Edição: céu da boca. Trabalho presente no acervo do Projeto Armazém.

 

 

 

 

09 A -invisívelaovonu_1_RaquelStolf.

 

 

09 B -invisívelaovonu_2_RaquelStolf

 

 

09 C -invisívelaovonu_versao-cartaz_inseridoempontodeônibus_florianópolis-2002_raquelstolf

 

 

09 D -invisível a ovo nu - versao-adesivo-em-pontodeônibus-portoalegre-2003_raquelstolf.

Invisível a ovo nu, 1999-2003. Cartazes ou adesivos instalados em espaços de espera, por períodos indeterminados. Dimensões: 30 cm x 40 cm (cada cartaz). 20,5 cm x 13 cm e 17 cm x 14 cm (cada adesivo). • Detalhe em ponto de ônibus em Florianópolis (cartaz – 2002) e em Porto Alegre (adesivo – 2003). Registro de intervenção realizada dentro das atividades do Programa de Extensão Perdidos no Espaço no Campus Central da UFRGS, Porto Alegre, 2003. Trabalho presente no acervo do Projeto Armazém (versão adesivo).

 

 

 

FORA [DO AR] – Kit para terceiros socorros, 2003-2004.
Vídeo.
Duração: 5’ 24’’.
Concepção, edição de áudio e ação: Raquel Stolf.
Edição: Glaucis de Morais.
Sinopse: Equipamentos de segurança conhecidos têm funções e designações alteradas para compor o kit fictício do título. Instruções de uso acompanham os aparelhos inventados pelo vídeo, como a “máscara para poeiras desconfortáveis” e os “óculos claros”.

 

 

 

 

Raquel Stolf nasceu em Indaial-SC, em 1975, e vive em Florianópolis-SC. Artista, pesquisadora e professora nos cursos de Graduação e Pós-Graduação em Artes Visuais da UDESC. Cursou Licenciatura em Artes Plásticas (1999) na UDESC, desenvolveu pesquisas de Mestrado (2002) e Doutorado (2011) em Artes Visuais na UFRGS. Suas proposições investigam relações entre processos de escrita e situações de escuta, nas intersecções entre palavra e silêncio, bem como, o procedimento da coleção (listas, inventários, suas tipologias e micro-variações). Coordena o selo céu da boca desde 2006, construindo projetos, proposições e publicações que envolvem desdobramentos em instalações, micro-intervenções sonoras, ações, vídeos, fotografias, textos e desenhos. Vem participando de projetos e exposições desde os anos 90, sendo as mais recentes: Borealis Festival – RADIO SPACE (Bergen, 2020); LivrosLivres (Florianópolis, 2020); Pão e pedra, palavra-miragem (Florianópolis, 2019), Soma Rumor (Rio de Janeiro, 2019), Lost and Found: Imagining new worlds (Singapura, 2019), RADIOPHRENIA (Glasgow, 2019), Rio Engano – 14a Bienal Internacional de Arte Contemporânea de Curitiba – Fronteiras em Aberto (Florianópolis, 2019); IN¬SONORA 10 ¬ – Muestra Internacional de Arte Sonoro e Interactivo (Madri, 2018), biblioteca: floresta (Ribeirão Preto, 2018), desterro desaterro – arte contemporânea em Santa Catarina – MASC 70 anos (Florianópolis, 2018), RIVER FILM / pedra fantasma / mar paradoxo (Florianópolis, Rio do Sul, Itajaí, 2017), Livro de Artista e Múltiplos (Belo Horizonte, 2017), entre outras. Vem coordenando projetos de publicações coletivas, como o projeto Sofá (2003-2011), Membrana-memoriola (2013), Palavras por palavras (2004), Disso (2012), PLUVIAL FLUVIAL (com Claudia Zimmer, 2013), Disso (isso) (com Danillo Villa, 2014), Anecoica (2014-2017) e https://anecoica.org (2018-2020), no CEART-UDESC e em outros contextos. Em 2015, foi contemplada com o Prêmio Catarinense de Bolsas de Trabalho – Ed. Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura / 2014 (com Helder Martinovsky), pela Fundação Catarinense de Cultura. Em 2017, recebe o Prêmio de Bolsa de Trabalho, Intercâmbio e Residência – Ed. Elisabete Anderle 2017 – FCC, pela mesma instituição.

 

 

00A RaquelStolf_foto_HelderMartinovsky

Créditos: foto de Helder Martinovsky