REDE CHOQUE apresenta: Fernanda Magalhães

00 - Foto da Artista

Créditos do retrato: Fernanda Magalhães (autorretrato)

 

Fernanda Magalhães é a artista apresentada nessa semana, dentro do programa de parcerias da Rede Choque, com destaque para nossos parceiros de Florianópolis: o Armazém e Coletivo Elza. A curadora convidada para nos apresentar as artistas do Armazém e Coletivo Elza é Juliana Crispe.

 

As obras de Fernanda Magalhães propõem ativamentos do corpo da mulher gorda e suas relações com os espaços, nos movimentos de outras mulheres e outros corpos presentes em audiência. Ao falar de sua existência, Fernanda provoca questões relacionadas ao corpo da mulher, aos corpos negados e excluídos.

 

Seus trabalhos partem da fotografia. Ainda criança, com 6 anos de idade, a artista criava um olhar fotográfico para o mundo a partir de sua vivência e da influência de seu pai, que era jornalista, poeta, ator e artista, grande influenciador dos processos criativos da filha. Com ele Fernanda freqüentava os laboratórios fotográficos bem como a tipografia, onde seu pai produzia folhetins, livros em sua editora caseira. Essa relação de afeto e admiração com seu pai determinaram seus processos de criação e o desejo em ser artista.

 

Também quando criança Fernanda freqüentou a Escolinha de Artes, dirigida e ministrada por sua tia Carmelita Magalhães. Sua tia era socióloga e professora, realizava um trabalho importantíssimo com as crianças e a introdução da arte nas comunidades de Londrina, além de dar aula no estado.

 

Referência nos movimentos artísticos feministas, Fernanda também relata a importância de sua mãe na constituição de sua formação. Minha mãe é uma mulher feminista nas ações. Nunca se declarou feminista, mas, suas atitudes sempre estiveram nesse lugar. Batalhadora, guerreira, super posicionada, sempre trabalhou fora, muitas vezes foi aquela que bancava a casa e organizava tudo. Sempre falou sobre o casamento não ser necessário, que não era um meio de vida. Que não precisávamos casar e ter filhos, só se fosse desejo. Nunca deixou meu pai ter ciúmes dela e estes machismos todos. Nunca foi submissa a ele. Sempre se coloca e fala o que pensa, dá suas opiniões. Super ativa. Ele (o pai) também era um homem diferente. Então acho que minha força das lutas vem daí. Tive estes exemplos no dia a dia. Minha mãe não fala que é feminista porém sempre foi em sua prática. Certamente isto fez com que eu enxergasse as coisas e tivesse ações que levam os meus trabalhos para este lugar. Questionando os sistemas patriarcais e as relações de corpo e consumo em nossa sociedade.

 

Fernanda desenvolve inicialmente seus trabalhos como fotógrafa mas também utiliza-se de sistemas híbridos para construção de suas obras, indo para junções de linguagens como pintura, desenho, vídeo, textos, publicações e tornando-se performer na produção de um trabalho autoral em que expõe seu corpo para propagar discussões.  Fernanda nos fala: estive sempre em várias fronteiras, de identidades imprecisas, múltiplas e rizomáticas. Mas a fotografia perpassou tudo.

 

Inicia sua carreira artística profissionalmente na década de 80, começando a expor em 1981 e a ser selecionada para festivais em 1984. Participava de pequenas exposições locais, do SESC Londrina, entre outros lugares. Já nessa época o corpo era foco de investigações, trabalhando com distorções causadas pelas lentes, na ampliação e impressão no laboratório fotográfico analógico, produzindo corpos desconstruídos, recortando-os, fazendo colagens, fragmentado-os, permitindo-se a múltiplas experiências.

 

Em 1993 os primeiros trabalhos de autorretrato surgem como poética, ali começou-se um processo que em perspectivas, ainda  hoje, tornam-se modos de operação e apresentação da artista. O corpo verte-se marca das representações, ações e estudos de Fernanda Magalhães. Artista importantíssima na história da arte contemporânea brasileira, Fernanda expõe seu corpo para alargar os olhares, produzir reflexões, provocar, criticar as relações de opressão e violência dos corpos direcionados a estéticas estabelecidas. Em redes, Fernanda abarca em sua produção uma diversidade de temas e ações que interrogam também a História da Arte e evoca diversos discursos para observarmos nas distintas épocas as relações estéticas presentes no cenário artístico, voltando-se principalmente para o corpo da mulher como espaço para debate e enfrentamento.

 

Assim, questiona as constituições de identidades, normatividades que em uma poética de auto-representação cria novos espaços de subjetivação e incorpora o corpo como campo político, dispondo-os não mais como elementos de consumo e objetificação, mas como corpos fortes, territórios que interrogam a construção de um mundo que controla e se coloca a serviço dos poderes.

 

Suas ações atravessam, perfuram, percorrem fronteiras de gêneros, de biopolíticas, geram múltiplas referências, e, que em sua maior potência, evidencia as trocas e vivências entre o público que se torna também ativador das ações conduzidas pela artista. Segundo Fernanda: durante as ações, o público aciona suas câmeras e celulares para fazer fotos e vídeos espontaneamente. Esse movimento, que acontece com grande frequência nas ações realizadas, além dos olhares e expressões do público, me levaram a realizar as minhas imagens da ação. Em algumas situações, eu também convoco o público para que fotografe a performance e me envie por e-mail ou publique redes sociais. Pergunto quem tem câmera ou celular. Em algumas ações, empresto câmeras ao público e peço às pessoas para que fotografem.

 

Apesar da repetição, cada performance produz diferenças. Diferenças em um corpo que apesar de um roteiro cria modos, afecções, relações com os outros corpos que se atravessam pelas ações, pelos espaços que acolhe, pelas situações que surgem em variações difíceis de prever, que acontecem pelo movimento, pelo acontecimento, pelo encontro e pela experiência.

 

Não há como sair das ações da artista e não deixarmo-nos atravessar por esse corpo que nos invade, que produz deslocamentos, danças, intervenções, instalações, participações ímpares. Fernanda faz repensar os corpos em confinamentos, as exclusões possíveis, as vaidades, formatações, ilusões, frustrações, desejos, movimentos, espaços de poder, potências e liberdades.

 

Diante de tanta força movida por esse corpo que transborda, a leveza também é evidenciada pelo compartilhamento, generosidade e empoderamento também do outro. Obra que fala de si, não como estrangeira, mas como vernácula, o que faz acreditar mais ainda que arte é um processo de autoconhecimento. Uma fala de si que se conta pelo outro e pelo encontro com o outro.

 

1 - agrassacrua, agostode2019, foto Tainá_low

Grassa Crua, 2019

 

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Grassa Crua, 2019

 

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Grassa Crua, 2019. Fotografia Performance realizada no Espaço Cultural Armazém – Coletivo Elza, no M.A.R – Mulheres Artista Resiste como parte da 14ª Bienal Internacional de Curitiba Dimensões Variáveis Registro Fotográfico de Tainá Bernard

 

 

 

Grassa Crua, 2018 Vídeo-performance Duração: 43 minutos e 04 segundos Performance realizada em 2016 Captação de Imagens: Natália Lima Castro, Camila Fontes, Renata Cabrera, Amanda Figueira e Camilla Farias Edição do Vídeo: Thais Arcangelo

 

 

 

 

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Grassa Crua, 2016 Desenho Digital, recorta/cola – imã de geladeira Dimensão: 20 x 20 cm Obra presente no acervo do Projeto Armazém

 

 

 

4 - A Natureza da Vida, Fernanda Magalhães, Bosque Londrina 2011 por Graziela Diez_low

A Natureza da Vida (Bosque Central de Londrina, Paraná, Brasil), 2011 Fotografia impressa em papel jornal 30 x 20 cm Registro de Graziela Diez Obra presente no acervo do Projeto Armazém

 

 

5 - A Natureza da Vida , Fernanda Magalhâes, Jardin du Luxembourg Paris 2011 GraDiez alta_low

A Natureza da Vida (Jardim de Luxemburgo – Paris), 2011 Fotografia, impressão em Fine Art 60 x 40 cm Registro de Graziela Diez Obra presente no acervo do Projeto Armazém

 

 

 

Fernanda Magalhães A Natureza da Vida (Ação 2), 2011 Vídeo – Stop Motion Duração: 1 minuto e 48 segundos Registro de Graziela Diez

 

 

7 - NatdaVida Silo Gra 2013 GRA_4002_low

A Natureza da Vida, Fazenda Viçosa, Distrito Maravilha, Londrina, 2013. Fotografia Dimensões variadas Registro de Graziela Diez

 

 

8 - A Natureza da Vida, UnivLivMeioAmb Curitiba2012 por Graziela Diez alta

A Natureza da Vida, Universidade Livre do Meio Ambiente, Curitiba, 2012 Fotografia Dimensões variadas Registro de Graziela Diez

 

 

9 - Performatus#2 Luiza Prado IMG_0874_low

A Natureza da Vida, Performatus #2 O QUE ESTÁ À LUZ DO NOSSO TEMPO, DISCERNIMOS NO ESCURO, Santos, 2017 Fotografia Dimensões variadas Registro de Luiza Prado

 

 

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Classificações Científicas Da Obesidade, 1997 Instalação Esculturas com dimensão real do corpo da artista Registro de Fernanda Magalhães

 

 

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Experiências no Corpo, 2015 Técnica FotoPerformance, impressão em Fine Art Dimensão 30×40 cm Obra presente no acervo do Projeto Armazém

 

 

 

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A Representação da Mulher Gorda Nua na Fotografia – Gorda 8, 1995 Fotocolagem 140 x 100 cm

 

 

13 B - ARepres Gorda por FerMaga 16_low

A Representação da Mulher Gorda Nua na Fotografia – Gorda 16, 1995 Fotocolagem 140 x 100 cm

 

 

13 C - ARepres Gorda 17 por FerMaga_low

A Representação da Mulher Gorda Nua na Fotografia – Gorda 17, 1995 Fotocolagem 140 x 100 cm

 

 

13 D - ARepres Gorda 25 por FerMaga_low

A Representação da Mulher Gorda Nua na Fotografia – Gorda 25, 1995 Fotocolagem 140 x 100 cm

 

 

13 E - Fernanda MagalhãesG28_low

A Representação da Mulher Gorda Nua na Fotografia – Gorda 28, 1995 140 x 100 cm

 

Fernanda Magalhães (1962, Londrina, PR, Brasil). Artista, Fotógrafa, Performer e Professora de Artes na Universidade Estadual de Londrina (desde 1991). Pós-doutora pelo LUME – Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas Teatrais da Unicamp (2016) e Doutora em Artes pela UNICAMP (2008). Recebeu o VIII Prêmio Marc Ferrez de Fotografia 1995 Minc/Funarte pelo Projeto “A Representação da Mulher Gorda Nua na Fotografia”. Publicou os livros “Corpo Re-Construção Ação Ritual Performance”, Travessa dos Editores (2010) e “A Estalagem das Almas”, em parceria com a escritora Karen Debértolis, Travessa dos Editores (2006). Suas obras integram os acervos de instituições como a Maison Europèene de la Photographie em Paris, França; o Museu Oscar Niemeyer em Curitiba; a Coleção Joaquim Paiva de Fotografia Contemporânea no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e o Acervo do Projeto Armazém, Florianópolis, SC.

 

 

01 - Foto da Artista

Créditos do retrato: Fernanda Magalhães (autorretrato)