REDE CHOQUE apresenta: Ana Sabiá

01 - Ana Sabiá selfportrait 2020

Créditos da imagem: Ana Sabiá (autorretrato)

 

Ana Sabiá é a artista apresentada nessa semana, dentro do programa de parcerias da Rede Choque, com destaque para nossos parceiros de Florianópolis: o Armazém e Coletivo Elza. A curadora convidada para nos apresentar as artistas do Armazém e Coletivo Elza é Juliana Crispe.

 

 

Os trabalhos da artista Ana Sabiá têm como disparos o corpo e a auto-reapresentação como estratégias de problematização política e feminina através da fotografia autoral. Segundo a artista, ela tece um diálogo estético e relacional com os procedimentos surrealistas para a construção de suas imagens. Os referenciais imagéticos de Ana, em seus palimpsestos, criam redes, tecem formas, desorientam pontos sobre a fotografia, o surrealismo, a produção da mulher ao longo da história e na contemporaneidade, tornam-se resistência, força-motriz e linhas de fuga.

 

Para quem habita os trabalhos de Ana Sabiá, reconhece o processo de criação artística deste corpo que alinhava, como costura não modal, a auto-representação por vias da operação e respingo surrealismo em uma profunda análise histórica desdobrada em suas pesquisas, ao atualizar os referenciais dos surrealistas propostos por homens e que ocultaram a ocupação da mulher como agente participativa e criadora daquele movimento.

 

Ana Sabiá traz em suas obras uma relação intrínseca com a natureza e seus atravessamentos com os corpos femininos criando assim identidades subjetivas que reforçam pela arte e ficção a criação de si. O autorretrato corpo-natureza, ou como acéfalo, dialoga com as pesquisas de Annateresa Fabris ao identificar conceitos contemporâneos sobre o autorretrato, que fragmentam ou ocultam o rosto, e que mesmo assim se reafirmam como auto-representação desconstruindo a rigidez do conceito de identidade.

 

Nas palavras da artista: Corpo, carne, ossos, sangue, leite, gozo, lágrimas e demais matérias palpáveis se corporificam e encarnecem os objetos de afeto, os objetos simbólicos e os objetos ordinários na tentativa poética de amalgamar a vida na arte e a arte na vida para remontar o documentário surreal de um passado, compreender o agora e semear para além. Um corpo estandarte de combate, ideias e amor.

 

Um corpo que quebra o espelho ao olhar para si e em fragmentos reconhece outros corpos. Um corpo-natureza de sobreposições que se torna informe. Um corpo permeado, perfurado por personagens, germinações, mortes, renascimentos. Um corpo-água que flui e transborda. Um corpo-mãe de muitas moradas.

 

Adentrar nas obras de Ana Sabiá é deixar-se fisgar como para quem olha para medusa, não em estado de petrificação, mas de vislumbre, encantamento e também em identificações ou assombros que tocam a pluralidade da mulher contemporânea, entre ser artista, mãe, múltipla e corpo político. Assim deixamo-nos capturar pelas camadas das imagens produzidas por Ana, pelas sensações corporais ativadas nas peles, nos arrepios, na sedução provocada pelas fotografias de Ana Sabiá.

 

Assim, o eu-outra nunca é uma dupla mas, à semelhança da medusa, uma cabeça ramificada, rizomática que grita. Abarca cada mulher, artista, pesquisadora que constrói com Ana essa pesquisa que é sobre si, sobre as outras de si mesmas e sobre tantas outras mulheres que Ana convida para com ela dançar ciranda e problematizar a domesticidade feminina. Problematizar o corpo feminino como espaço à disposição – feminismos.

 

Ana reverte à arte como potência de vida, como luta, como causa, como política, mas também, em sua produção, há caminhos para fabulações possíveis. Como centro de um universo em conexões que se pautam pelo feminino e pelos feminismos, além de sua atualidade, é revigoramento e tornam-se formas de contágios.

Sigo desejante que vejam medusa como vi.

 

 

01 – Um dia será o mundo com sua impersonalidade soberba versus a minha extrema individualidade de pessoa mas seremos um só

 

 

1 - Ana_Sabia_05_fauna e flora_I

Fauna e Flora I, 2016 Série Um dia será o mundo com sua impersonalidade soberba versus a minha extrema individualidade de pessoa mas seremos um só Fotografia digital, impressão em Fine Art Tamanhos Variados

 

 

2 - Ana_Sabia_08 Mamazeiro

Mamazeiro, 2016 Série Um dia será o mundo com sua impersonalidade soberba versus a minha extrema individualidade de pessoa mas seremos um só Fotografia digital, impressão em Fine Art 93x50cm. Tiragem: 1/20 Obra presente no acervo do Projeto Armazém

 

 

3 - Ana_Sabia_11_casulo II

Casulo II, 2016 Série Um dia será o mundo com sua impersonalidade soberba versus a minha extrema individualidade de pessoa mas seremos um só Fotografia digital, impressão em Fine Art 21×14 cm Obra presente no acervo do Projeto Armazém

 

 

Um dia será o mundo com sua impersonalidade soberba versus a minha extrema individualidade de pessoa mas seremos um só.

 

O hibridismo entre corpo e natureza é a proposta dessa série. A vegetação multiforme é aquela mesma que venho acompanhando durante toda minha existência, com seus ciclos de germinação, morte, renascimento – e todo o processo sexual daí constitutivo – trespassa o corpo, o espelha, o fertiliza. E vice-versa.

 

Estes autorretratos propõe evidenciar a relação corpo-natureza e auto-representação, no desafio de estabelecer resignificações dos valores culturais não-idênticos nos múltiplos e aumentados panoramas comunicacionais na cultura digital, nos discursos de gênero e nas diversidades de um eu, que assim como a natureza, está em constante fluxo.

 

 

 

02 – Panorâmicas do desejo

 

4 - Ana_sabia_01_vigilia_de_uma_noite_de_inverno

Vigília de uma noite de inverno, 2016 Série Panorâmicas do desejo Fotografia digital sublimada em tecido 50×600 cm

 

 

5 - Ana_Sabia_02_delirio_de_uma_noite_de_primavera

Delírio de uma noite de primavera, 2016 Série Panorâmicas do desejo Fotografia digital sublimada em tecido 50×600 cm

 

 

6 - Ana_Sabia_03_sonho_de_uma_noite_de_verao

Sonho de uma noite de verão, 2016 Série Panorâmicas do desejo Fotografia digital sublimada em tecido 50×600 cm

 

 

7 - Ana_Sabia_04_devaneio_de_uma_noite_de_outono

Devaneio de uma noite de outono, 2016 Série Panorâmicas do desejo Fotografia digital sublimada em tecido 50×600 cm

 

panorâmicas do desejo

Panorâmicas do desejo é uma série que propõe dialogar imagens reais e construções oníricas. É uma colagem dos devaneios, sonhos, vigílias e delírios que se desenrolam a partir de acontecimentos cotidianos, tanto composto de banalidades como, também, de eventos extraordinários e surreais.

 

As quatro estações do ano constituem-se no mote das intervenções imagéticas: no Inverno, um descuido entre realidade e a vigília nos convida a percorrer um horizonte acidentado em montanha fantasiosa que deixa entrever cavernas escuras, morada dos nossos ancestrais; a Primavera brota com sensualidade jorrando do seio o alimento que fecunda a terra e alimenta novas formas de vida; no Verão a floresta encantada de Shakespeare – em “Sonhos de uma noite de verão” – assim como seus inesperados personagens nos apontam o portal de entrada ao inconsciente e à luxuria; no Outono a melancolia azul das águas nos convida à imersão em nós mesmos, náufragos da vida em buscas de novas terras firmes.

 

 

 

03 – Vestes de vestais

 

8 A - Ana Sabia_vestesdevestais

Confecção de três camisas de força que se diferenciam entre si pelo detalhe dos ornamentos: meus próprios cabelos costurados em cada uma delas configurando três padronagens/modelos diversos. Foto-performance (autorretratos) usando as camisas de força.

 

8 B - Ana Sabia_vestesdevestais_camisas

Vestes de vestais, 2016/2017 12 fotografias, 29×21 cm (cada) 3 camisa de força em linho e cabelos, 160X40 cm (cada)

 

Vestes de vestais

Nos autodenominamos sujeitos da razão. Produzimos verdades legitimadas por pares no seio da sociedade de controle. Sujeitos históricos, vigiados e punidos, foram, são, serão aqueles que ousam estar à margem das regras sociais impostas. Comportamentos e palavras denotam desvios ou enquadramentos. O corpo permanece alvo dos discursos dualistas. Em tempos idos, a proteção para o corpo contra intempéries ambientais há muito reivindica status de moda, que também classifica. Problematizo, neste trabalho, arte e micro-política que perpassam, em variados níveis, o controle do sujeito, julgamentos sócio-cultural, questões de gêneros nas esferas privada e pública. A camisa-atadura, que imobiliza gestos e ações das/os consideradas/os perigosas/os, pois sem a posse da razão – histéricas, feiticeiras, pecadoras – apresenta-se com variações estéticas assim como uma coleção de moda outono-inverno. As vestais são as musas inspiradoras dessa coleção e o lookbook está à disposição da clientela.

 

As vestais eram as sacerdotisas na Roma Antiga que cultuavam a deusa romana Vesta. Era um sacerdócio exclusivamente feminino, restrito a seis mulheres que seriam escolhidas entre a idade de 6 a 10 anos, servindo durante trinta anos. Durante esse período, as virgens vestais eram obrigadas a preservar sua virgindade e castidade, pois qualquer atentado a esses símbolos de pureza significariam um sacrilégio aos deuses romanos e, portanto, também à sociedade romana. O vestuário e o penteado das virgens vestais mostram a importância da castidade e da pureza das vestais em seu culto. Também demonstram o seu status social especial dentro da sociedade: como membros cidadãs de Roma e como não membros da estrutura familiar que rege essa sociedade”.

 

 

04 – Jogo de Paciência

 

9 - ana_sabia_jogodepaciencia_10

Sem título, da série Jogo de Paciência, X, 2020 Fotografia digital Tamanhos Variados

 

 

10 - ana_sabia_jogodepaciencia_30

Sem título, da série Jogo de Paciência, XXX, 2020 Fotografia digital Tamanhos Variados

 

 

11 - ana_sabia_jogodepaciencia_90

Sem título, da série Jogo de Paciência, XC, 2020 Fotografia digital Tamanhos Variados

 

Jogo de Paciência, 2020 – (em processo enquanto durar a quarentena no Brasil )

A dualidade no uso de simbolismos, o deslocamento entre polos opostos de conceitos, as vias duplas que apontam verso e reverso são espelhos multifacetados que reproduzem reflexos caleidoscópios. Nesse sentido, a fabulação fotográfica da série “Jogo de Paciência” busca amalgamar antagonismos entre a realidade ficcional e a ficção realista em referência direta à estética surrealista.

A começar pela escolha na fotografia em preto, branco e uma considerável gama de cinzas, evidência que demarca a supressão da realidade colorida visível aos olhos, remete aos primórdios da fotografia e suspende a temporalidade linear. O cenário composto por lençóis brancos delimita um palco surreal para os personagens e objetos. Por vezes o “fundo infinito” afirma o deslocamento espacial onde tudo está suspenso: não há paredes, chão ou teto e os elementos buscam algum arranjo emoldurados pela brancura amarrotada.

 

 

 

01B - Ana Sabiá selfportrait 2020

Créditos da imagem: Ana Sabiá (autorretrato)

 

Ana Sabiá (SP, 1978) é artista visual e pesquisadora independente. Doutora em Artes Visuais pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), mestra em Psicologia Social (UFSC) e graduada em artes visuais pela FAAP (SP). Atualmente reside em Florianópolis (SC). Participa ativamente da cena fotográfica contemporânea de exposições, palestras, mostras e festivais em todo o território nacional. Em 2017 foi premiada com o 1° lugar (categoria foto única) no 13° Festival Internacional de Fotografia Paraty em Foco (RJ); com o 2° lugar do juri oficial do Prix Photo Web Aliança Francesa e selecionada em convocatória do SESC Galerias, para a mostra individual “Do porão ao sótão” itinerante em três cidades catarinenses. Em 2019 foi selecionada para a mostra coletiva “Vento Sul” no 9° Foto em Pauta Festival de Fotografia de Tiradentes (MG) e convidada pela curadoria da 14ª Bienal Internacional de Curitiba para integrar a programação com a mostra individual “Panorâmicas do Desejo”. Em 2020 foi selecionada no edital “Arte como respiro” do Itaú Cultural (SP);  também selecionada no 25° Salão Anapolino de Arte (GO) e, neste mesmo ano, na leitura de portfólio do FESTFOTO (POA), obteve o Prêmio Aquisição do Museu da Fotografia de Fortaleza.