REDE CHOQUE apresenta: Silvana Macêdo

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Créditos: Foto de Silvana Macêdo – autorretrato

 

Silvana Macêdo é a artista apresentada nessa semana, dentro do programa de parcerias da Rede Choque, com destaque para nossos parceiros de Florianópolis: o Armazém e Coletivo Elza. A curadora convidada para nos apresentar as artistas do Armazém e Coletivo Elza é Juliana Crispe.

 

Silvana Macêdo tece uma vasta teia de elementos em sua produção. Em elaboradas redes, entrelaça a representação da natureza com imbricamentos entre arte e ciência, entre a escrita de si e mergulhos em subjetividades coletivas. Sua pesquisa acerca de maternalismos contemporâneos parte da sua própria experiência materna e de diálogos sensíveis com outras mulheres, na luz de debates feministas. No conjunto de sua produção, os trabalhos se desdobram em linguagens múltiplas como a pintura (base inicial de sua formação artística), gravura, fotografia, instalação e vídeo. Trata-se de uma artista-etc como diria Ricardo Basbaum.

 

Apresentamos aqui nesta exposição séries que se aproximam e em primeira vista se distanciam, mas no conjunto das obras cartografa e nos mostra rizomas temporais na produção da artista que ora se esbarram, conectam-se e criam novas camadas e atravessamentos.

 

A exposição Intraduzível (2018) reuniu trabalhos que as artistas Silvana Macêdo e Henna Asikainen desenvolveram ao longo de duas décadas, e ainda inclui trabalhos com outros dois colaboradores, o compositor Frederico Macêdo e o astrofísico Reza Tavakol. Intraduzível investiga uma complexa relação tecida entre arte, ciência e natureza, e é bem representativa das temáticas exploradas por Silvana em grande parte da sua trajetória inicial e ainda com ressonâncias em sua produção mais recente. Um dos elementos centrais destes trabalhos colaborativos é a noção de tradução ou do intraduzível. Assim as obras podem ser entendidas como processos tradutórios em que a representação da natureza pela ciência e arte, investigam o deslocamento através da linguagem artística e científica em suas traduções da natureza, concebida como um conceito Intraduzível.

 

A série Réquiem (2001) também é fruto da parceria entre Silvana e Henna e consiste de registros fotográficos de pássaros embalsamados, que fazem parte do acervo do Museu de História Natural Hancock, em Newcastle (UK), onde as artistas estiveram em residência por um ano, em 2000.  A série revela o esvaziamento da vida que está justaposto na construção de vastas coleções científicas, e que permeia as melancólicas imagens que soam como um lamento.  O trabalho das artistas em instituições científicas aponta para incômodas relações entre a violência contra animais não humanos e a violência colonial que se deu na formação deste tipo de acervo nos países europeus.

 

Nas séries Mácula e Entranhas, realizadas entre 2014 e 2017, a artista mergulha em seu corpo para reconhecimento do que a torna matéria de seus próprios estudos. Silvana continua interessada na relação da arte com a ciência. Apropria-se de ilustrações de livros de anatomia humana como referência, e as transforma em fluidas paisagens interiores. Os órgãos, tecidos e células se confundem ora com elementos estruturais de plantas (folhas, galhos, raízes) ora com ambientes subaquáticos. Fora e dentro se espelham revelando uma continuidade entre o corpo e a natureza da qual faz parte. A série nasce num período em que Silvana se recuperava de uma doença grave. Como escreve Néri Pedroso, estes trabalhos “têm em sua gênese traços intimistas, o corpo como pulsão de autoconsciência do sujeito”. Na performance Maculada, Silvana marca pontos sensíveis carregados de memória em seu corpo, para depois apagar as manchas deixadas no branco do vestido. As pinturas e performance se constituem de densas matérias que partem do vivido, da carne, entrelaçando aspectos físicos e psíquicos da vida da artista. De corpo e alma, num frágil e poroso equilíbrio, as marcas corporais fazem parte de um fluxo entre dor, perdão, amor e desejo de viver.

 

Pautadas em elementos autobiográficos surgem também as séries Devoção (2013-18), Nó Materno (2013-18) e Sombra de Névoa (2014-18). Em Devoção Silvana partilha fragmentos de sua experiência materna dialogando com o cotidiano de outras mães. Ao evidenciar o espaço íntimo dos lares, o trabalho procura dar visibilidade aos inúmeros pequenos atos devocionais que elas realizam diariamente. Há uma negociação constante entre suas necessidades pessoais e profissionais, com o tempo e o cuidado dedicados a seus filhos.  Na série de retratos Nó Materno mulheres-mães olham para as relações traçadas com suas mães, numa relação temporal entre diferença e repetição, ancestralidade, relações e afecções. Silvana tenta captar nos gestos, expressões e olhares, algo de genuíno do relacionamento entre mães e filhas, que possa emergir do inevitável constrangimento de estarem em um estúdio fotográfico em frente a uma câmera.

 

Já em Sombra de Névoa, vídeo instalação multicanal, Silvana propõe revisitar o passado. A personagem criança penetra num espaço que parece separar a vida e a morte, tentando compreender o grande abismo que se estabeleceu entre ela e sua mãe que já partiu.  A fluidez da memória e dos espaços subconscientes são refletidos nas imagens subaquáticas que compõem os vídeos. O vídeo sugere a transcendência temporal e material desta trama delicadamente tecida entre mãe e filha. Entre tantas relações em nossa condição humana, certamente para Silvana, este é um elo que perdura e que ela carrega como uma marca que a atravessa e molda.

 

Silvana Macêdo volta seu olhar para a superação de perdas e transformações em outras biografias, como na série Gurbah (2019-2020), que elabora em parceria com os refugiados sírios Yara Osman e Adel Alloush. O encontro destas três pessoas, junto com Val Santos (sound design), tomou a forma de uma videoinstalação sonora, cartazes, fotografias e outros objetos, que mergulham nos múltiplos sentidos da palavra árabe gurbah, que pode ser traduzida como “saudade de casa” e um forte sentimento de estranhamento. Estranhamentos múltiplos causados pelo deslocamento imposto e a devastadora experiência da guerra estão na origem deste trabalho.

 

O que observamos nos conjuntos de trabalhos produzidos pela artista é uma premência de se pensar a vida nas relações visíveis entre o tempo, a ciência, a natureza, o materno, os feminismos, o olhar respeitoso entre eu e o outro. Em sua prática colaborativa Silvana investiga relações sociais e políticas urgentes na contemporaneidade construídas em bases que reafirmam o afeto, o sensível como agentes possíveis de transformações.

 

 

 

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Silvana Macêdo, Série Mácula , 2015. Pintura nankin sobre papel de algodão, 34,5 x 26,2 cm

 

 

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Série Mácula, 2015. Pintura nankin sobre papel de algodão, 34,5 x 26,2 cm. Obra presente no acervo do Projeto Armazém em formato de múltiplo

 

 

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Série Mácula, 2017. Instalação – Instituto Meyer Filho, Florianópolis, SC, Técnica mista dimensões variáveis

 

 

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Série Mácula, detalhe do anel Lupus, 2020. Foto-performance , Fotografia digital, Impressão Fine Art, Papel Matt fibre, 40 x 60 cm

 

 

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Série Mácula, 2020. Foto-performance , Fotografia digital, Impressão Fine Art, Papel Matt fibre

 

 

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Silvana Macêdo Série Mácula Perda/Perdão, parte de Mácula 2020 Foto-performance Fotografia digital, Impressão Fine Art, Papel Matt fibre 85 x 30 cm

 

 

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Série Entranhas – Córtex renal , 2016 . Pintura acrílica e óleo sobre linho, 168 x 168 cm

 

 

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Série Entranhas – Florescendo, 2015 . Pintura acrílica e óleo sobre linho, 152 x 182 cm

 

 

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Série Entranhas – Célula nervosa, 2015. Pintura acrílica e óleo sobre linho, 137 x 167 cm

 

 

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Gurbah – da série Bombardeio, 2019. 6 Pinturas em nankin sobre papel de algodão, 34,5 x 26,2 cm. Obra presente no acervo do Projeto Armazém em formato de postal

 

 

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Gurbah – Destroços, 2019 – 2020. Pinturas acrílica e óleo sobre escombros, 20 x 15 x 30 cm

 

 

 

Gurbah, 2019. Vídeo de documentação da Exposição Gurbah – 5 min. Parte da 14a Bienal Internacional de Curitiba, Polo SC. Galeria Pedro Paulo Vecchietti, Florianópolis, SC

 

 

 

Gurbah – Olhares de Yara, 2019. Vídeo instalação sonora, 1 min. TV com dimensão de 40 x 50 cm

 

 

 

Gurbah – Olhares de Adel, 2019. Vídeo instalação sonora, 1 min, TV com dimensão de 40 x 50 cm

 

 

 

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Série Réquiem 2001. Fotografia digital, Impressão mineral, Papel Matt fibre, Coladas em PVC 80 x 52 cm

 

 

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Série Réquiem, 2001. Fotografia digital, Impressão mineral, Papel Matt fibre, Coladas em PVC, 50 x 60 cm. Obra presente no acervo do Projeto Armazém

 

 

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Série Réquiem, 2001. Fotografia digital, Impressão mineral, Papel Matt fibre, Coladas em PVC, 40 x 60 cm. Obra presente no acervo do Projeto Armazém

 

 

 

Silvana Macêdo e colaboradores, Intraduzível. Exposição de caráter retrospectivo no MIS/SC, Florianópolis. Vídeo de documentação – 5 min, 2018

 

 

 

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Silvana Macêdo e Henna Asikainen, Air (ar), 2003. Técnica mista, vídeo instalação. Estufa (estrutura de alumínio, vidro, borracha); tela de projeção, água, 2 vídeo projetores (DPL), dois mini DV VCRs, vidro com ar coletado na floresta Amazônica, lâmpada dicróica, fios de metal. Dimensões em centímetros: projeção na parede (floresta gelada): 200 x 300 cm; segunda projeção (sobre estufa): 120 x 180 cm; estufa 120 x 180 x 190 cm, vidro vidro com ar: 18 x 8 cm.

 

 

 

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Silvana Macêdo e Frederico Macêdo Cooperari, 2007. Vídeo instalação sonora, Dimensões em centímetros: projeção na parede: vídeo dos marimbondos círculo de aprox. 35 cm, segundo elemento (mapa mundi feito com ninhos de marimbondos abandonados) aprox. 90 x 50 cm

 

 

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Silvana Macêdo, Série Devoção, 2014. Fotografia digital, Impressão mineral, Papel Matt fibre, Coladas em PVC, 80 x 52 cm

 

 

8B - série Devoção

Série Devoção, 2016. Fotografia digital, Impressão mineral, Papel Matt fibre, Coladas em PVC, 60 x 90 cm

 

 

8C - série Devoção

Série Devoção, 2013. Fotografia digital, Impressão mineral, Papel Matt fibre, Coladas em PVC, 40 x 60 cm

 

 

9A - Série Nó Materno

Série Nó Materno, 2013. Fotografia digital, Impressão mineral, Papel Matt fibre, Coladas em PVC, 60 x 90 cm

 

 

9B - Série Nó Materno

Série Nó Materno, 2018. Fotografia digital, Impressão mineral, Papel Matt fibre, Coladas em PVC, 40 x 60 cm

 

 

9C - Série Nó Materno

Série Nó Materno, 2018. Fotografia digital, Impressão mineral, Papel Matt fibre, Coladas em PVC, 40 x 60 cm

 

 

 

 

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Still do vídeo Sombra de névoa. Vídeo instalação em três canais, 5 min 2014-2018. Dimensões variáveis

 

 

Silvana Macêdo, Sombra de Névoa, 2014-2018. Vídeo instalação em três canais, 5 min

 

 

 

Silvana Macêdo nasceu em Goiânia (GO), em 1966. Reside em Florianópolis desde 2004, onde atua como professora no Departamento de Artes Visuais da Universidade do Estado de Santa Catarina, atuando nas áreas de Pintura, Multimeios, Instalação e Multimídias e Artes Midiáticas e no Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais/UDESC.

A artista pesquisa o diálogo entre a arte contemporânea, ciência, natureza e tecnologia em seu trabalho artístico há anos, tendo sido este o tema de seu doutorado (2003), na Northumbria University, Newcastle Upon Tyne, no Reino Unido. Aprofundou suas pesquisas sobre tecnologia de telepresença em seu trabalho de pós-doutorado sob orientação da Profa Dra Diana Domingues na Universidade de Caxias do Sul, em 2005. Desde então desenvolve projetos artísticos que envolvem o uso de tecnologias novas e antigas, sobre a temática do meio ambiente. Mais recentemente desenvolve pesquisa sobre maternalismos contemporâneos, feminismos, estudos de gênero, e autobiografia.

 

 

 

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