REDE CHOQUE apresenta: Amanda Melo

00 - Foto da Artista

Créditos do retrato: Foto de Ricardo Aguiar

 

Amanda Melo é a artista apresentada nessa semana, dentro do programa de parcerias da Rede Choque, com destaque para nossos parceiros de Florianópolis: o Armazém e Coletivo Elza. A curadora convidada para nos apresentar as artistas do Armazém e Coletivo Elza é Juliana Crispe.

 

O trabalho de Amanda Melo da Mota pesquisa nas relações com o tempo e o espaço, paisagens e corpos, as várias formas e meios de encontros com grupos que alimentam suas investigações e estabelecem dinâmicas capazes de integrarem práticas terapêuticas possíveis de se desdobrarem em visualidades e vivências poéticas. A artista também se preocupa em retornar e refletir criticamente sobre a relação humana com a natureza nos dias de hoje, trazendo possibilidades de visões em movimentos gerados por uma espécie de sintropia (como na agricultura sintrópica do Ernest Götsch), alternativa ao estado entrópico do mundo.

 

Sua produção mais recente está vinculada a encontros com grupos que celebram solstícios e equinócios, realizados nos sítios arqueológicos e monumentos megalíticos da ilha de Florianópolis. Os encontros revelaram um solo poético para que fossem desenvolvidas obras cuja presença do corpo apresenta uma perplexidade diante do inexplicável. Investiga as pedras e as plantas da ilha a partir de grupos específicos como os pesquisadores de arquoeastronomia, rezadeiras e o grupo de mulheres do Coletivo Elza. Insere a experiência do corpo em inspeções reais, sonhadas e fabuladas criando imagens que dialogam com as novas práticas em tempos de confinamento, observando e sentindo o corpo que vibra a partir da ausência dos deslocamentos no contexto atual.

 

Amanda percorreu as regiões da ilha nos períodos desses eventos para inserir-se na paisagem e nela fazer parte. Mapeia os tempos e por eles perfura o passado, devolvendo-o ao presente, nessa investigação que parte também de ações performáticas realizadas pela artista. Estar no entre, no corpo-paisagem, no mergulho sobre essas temporalidades e por vivências solitárias ou coletivas dessas ações, nas fronteiras anacrônicas de um passado científico e mítico, propondo assim cosmografias atemporais.

 

Trazer para a contemporaneidade as relações de um pensamento mítico, estreitamente alinhado com pensamentos filosóficos do agora, interessa-nos, sobretudo, na descoberta ou reinvenção, como um instrumento que permite acessar o desenvolvimento do processo de conhecimento de uma realidade via conservação de descobertas transmitidas por ancestralidades, de geração em geração, em narrativas que não devem deixar de existir.

 

É pela vivência, escuta e palavras que Amanda condensa a experiência e desdobra em suas obras pelas mãos e olhos que vão repassando os saberes transgeracionais.

 

Nas palavras da artista, suas obras cavoucam sobre: pedras que falam, corpo mulher que pode ser qualquer corpo, corpo mulher matriz que gera, faz crescer, se espalha. Também contém uma alquimia que reza por mudanças desse cultivo do mono, daquilo que não tolera o diverso, pois em si não tolera a vida como ela de fato é. Isso está aí no pensamento patriarcal histérico. Imagens que revelam estados possíveis de resposta a séculos de dominação. Reconciliação com a natureza, respeito a suas forças e aos seus elementos. As forças que geram e nos conectam com uma cosmogonia transgeracional, com leituras de linguagens simbólicas das diversas naturezas.

 

A auscultação e a transmissão surgem, assim, como forças dotadas de uma espiritualidade, do universo feminino e resistente nas obras de Amanda, de uma força sensível que exclama e proclama respeito ao passado e a reconstrução, criação ação tão necessária de ser resgatada no contemporâneo, que se conserva pela arte para além do ciclo de vida e morte, capaz de por si própria reevocar conhecimentos e acontecimentos passados que se estabelecem nas ações do presente prefigurando o futuro em atravessamentos de tempos.

 

 

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Amanda Melo da Mota Equinócio, 2019. Acrílica sobre tela, 20 x 20 cm

 

 

02 - fitoastrofisica

Fitoastrofísica, 2020. Acrílica sobre tela, 20 x 20 cm

 

 

03 - solsticio

Solstício, 2019. Acrílica sobre tela, 20 x 20 cm

 

 

04 - onde_as_pedras_falam

Onde as Pedras Falam, 2019. Acrílica sobre tela, 20 x 20 cm

 

 

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Escudo, 2017. Fotografia, 80 x 120 cm

 

 

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Ponta das Canas, 2018. Fotografia, 80 x 100 cm

 

 

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Chama, 2019. Fotografia, 80x120cm. Obra presente no acervo do Projeto Armazém

 

 

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Quebra Demanda, 2020. Fotografia, 40x60cm

 

 

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Clitória Ternatea, 2019. Fotografia, 40 x 60 cm

 

 

 

Amanda Melo nasceu em São Lourenço da Mata, Pernambuco, em 1978. É graduada no curso de Educação Artística da Universidade Federal de Pernambuco. Destacam-se suas exposições individuais na FUDAJ (PE) em 2002 e em 2005, da mesma instituição. Em 2004 participa do Prêmio Chamex de Arte Jovem do Instituto Tomie Ohtake, ganhando o segundo prêmio. Em 2007 realiza individual no instituto Banco Real em Pernambuco. Entre as exposições coletivas destaca-se o Projeto Rumos de Artes Visuais edição 2005/2006. Em 2008 recebe prêmio do programa Bolsa Pampulha (MG). Em 2009 é premiada no 47o Salão de Artes de Pernambuco. Em 2010, participa do programa expositivo do CCSP. Em 2011, realiza individuais Água Viva no centro Cultural Banco do Nordeste(CE). No mesmo ano, participa do 32 Panorama da Arte Brasileira e da exposição “Os Primeiros Dez Anos” do Instituto Tomie Ohtake em São Paulo. Em 2012 destacam-se a exposição Novas Aquisições do MAM do Rio e Metrô de Superfície no Paço das Artes(SP). Em 2013 participa do 33 panorama da Arte Brasileira. Em 2014 participa da exposição Duplo Olhar no Paço das Artes. Em 2016 participa de exposição coletiva no Getty Center em Los Angeles. Em 2019 participa da exposição À Nordeste no SesC 24 de maio, II Bienal do Barro e 14a Bienal Internacional de Curitiba. Vive e trabalha em São Paulo.

 

 

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