VIEWING ROOM: EXPOSIÇÃO RAFAEL SILVEIRA

Ornitologia Cubista making of

 

Temos o prazer de apresentar algumas imagens dos novos trabalhos de Rafael Silveira disponíveis na Choque Cultural.

“Como bom pós-moderno, Rafael bebe água de todas fontes, como um rio que vai sendo engrossado pelos seus afluentes. Com inúmeras referências ao mundo do consumo e do entretenimento, ele aborda o cotidiano sob um ângulo que ultrapassa o tangível, enveredando num imaginário complexo, que tanto pode ser doce e afetuoso quanto escatológico e repulsivo”.  Leia no final dessa apresentação, texto escrito pelo crítico e curador Agnaldo Farias sobre o artista para o livro que acompanhou a série Circonjecturas. 

Essas novas peças fizeram parte da Circonjecturas, uma série de exposições ocorridas em Curitiba, no Museu Oscar Niemeyer, em São Paulo no Centro Cultural Fiesp e em Brasília, na Caixa Cultural. Fotos de Mariana Alves

 

 

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Ampulheta, óleo sobre painel e moldura esculpida, 130 x 80 cm, R$26.000 

 

 

Dentro e Flora, 130x100cm

 

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Dentro e Flora, óleo sobre painel e moldura esculpida, 130 x 100 cm, R$26.000

 

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Insight, 150x100cm

Insight, óleo sobre tela, 150 x 100 cm, R$26.000

 

Contemplação (moldura)

Contemplação, óleo sobre tela e moldura esculpida, 98 x 78 cm, R$18.000

 

 

 

 

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A Todo Vapor, desenho a lápis sobre papel, 70 x 50 cm, R$5.000

 

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Wild Life, desenho a lápis sobre papel, 50 x 70 cm, VENDIDO

 

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Mind’s Funfair, desenho a lápis sobre papel, 50 x 70 cm, R$5.000,00

 

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Paradise, desenho a lápis sobre papel, 70 x 50 cm, VENDIDO

 

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Profilaxia, desenho a lápis sobre papel, 70 x 50 cm, VENDIDO

 

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Livro ‘O Gabinete de Curiosidades’ de Rafael Silveira’, R$120,00  Veja mais sobre o Livro aqui

 

O Gabinete de Curiosidades de Rafael Silveira 

Íntegra do texto de Agnaldo Farias para o livro “O Gabinete de Curiosidades” de Rafael Silveira

 

O poeta disse aos seus irmãos: 

“Até agora não temos feito outra coisa que

 imitar o mundo em seus aspectos, não criamos nada. 

O que saiu de nós que não estivesse antes parado 

diante de nós, rodeando nossos olhos, 

desafiando nossos pés as nossas mãos?”

Vicente Huidobro, Non Serviam (De Manifestos, 1925) 

 

Até chegar aqui o leitor passou por flores, morangos, moscas, pássaros, aranhas, caveiras, chapéu, dentes, dentaduras, olhos, muitos olhos, coração…. A entrada deste livro já deixa ver a voracidade onívora de Rafael Silveira por imagens, imagens/coisas, imagens aplicadas sobre bichos e objetos. Seus motivos e formas variam muito, podem ser delicadas e ilustrativas, como as borboletas impressas em caixas de fósforos, flamingos caminhando na névoa, um pequeno folheto contendo uma fila de dentes, o dedo hiperrealista amputado. O mais interessante, o que o vem colocando em uma posição singular dentro da nossa cena contemporânea, é quando ele cria no sentido proposto pelo grande Huidobro, quando vai além do está “parado diante de nós, rodeando nossos olhos”, operando metamorfoses, fusões e justaposições imprevistas entre imagens. Pode-se argumentar quanto a impropriedade do grande poeta por fazer uso do termo “criar”, de fato muito pesado, posto que coloca artistas como demiurgos. Nesse sentido valerá a formulação de Barthes sobre Giuseppe Arcimboldo, de resto um aparentado com Rafael, “sua imaginação [de Arcimboldo] é propriamente poética: não cria os signos, combina-os e permuta-os, extravia-os –o que faz exatamente o operário da língua”. 

 

Antes de prosseguir, convém lembrar que a etimologia do termo “imagem” remonta ao século XIII, querendo dizer representação artificial de algo -coisa, pessoa, paisagem…- tão semelhante quanto possível. Graças a artistas da linhagem a qual Silveira pertence, o termo terminou a incluir a representação de coisas que não existem. E se não existem não podem ser representados. Tratam-se, pois, de apresentações. Uma versão contemporânea de um Gabinete de Curiosidades, mas determinado a apresentar somente coisas estranhas. É o que acontece com o passarinho vermelho de cujo corpo saem veias, a principal delas azul, cujas raízes capilares correm pela epiderme translúcida, desprovida de penugem; a pálpebra entreaberta de onde nos espreita uma pupila azul sobre o dorso de uma mosca; a sinistra rosa vermelha de cujas pétalas pojadas de cor brota uma caveira; o coração que avança com pernas de aranha, a dentadura risonha, o globo ocular solto como uma bola de gude. 

 

Coisas de criança? Sim e não. Para começar é preciso ter em mente que as coisas de crianças são projetadas por adultos e que muitas das coisas que os adultos fazem são ressonâncias do que foram quando crianças. E, ademais, muito do que recebemos toca diretamente a criança que fomos, como que a despertando. Portanto, cuidado. Não há nada de simples nas páginas que se seguem, antes o contrário, revelam a fecunda dialética entre o mundo percebido e o mundo interpretado, imaginado e posteriormente refeito. 

 

Pense-se agora nas linhas de produção destinada a encharcar o mundo do consumo, um mundo que tem a extensão do que houver do planeta passível de ser conquistado, de imagens convertidas em pequeninos animais de plástico ou estampados em stickers, papéis de carta, álbuns de figurinhas. Pense-se que isso cobre do estegossauro às bonecas verossímeis a ponto de fazerem xixi. Some-se a eles os bichos entre fofos e monstruosos, como o frango mole, de borracha, desossado e despenado, que os gurizinhos de vinte anos atrás carregavam pelo pescoço. Todos os animais e vegetais existentes, incluindo os inventados, virtualmente todos, estão replicados em imagens ou miniaturas tridimensionais. Do prosaico leão à samambaia confeccionada com apuro em algum lugar remoto da China, todos estão à venda em bancas de jornal, lojas de brinquedos, armazéns de quinquilharias e bric-à-brac, bancas de camelô, sinais de trânsito. Para onde se vira haverá um ou mais deles. E além de ubíquos há que se levar em conta de que também significativos.

 

Roland Barthes, em seu Mitologias, discorreu sobre o papel contado pelos brinquedos infantis na pré-figuração da vida adulta. Ele avançou nessa direção num outro ensaio, comentando que o “o objeto é assinatura do homem no mundo”. É fácil e fértil juntar esses dois  raciocínios considerando o modo como os objetos, invadindo e compondo o ambiente em que vivemos, dizem o que somos, o que querem que sejamos, impactando indelevelmente nossa psiquê.  

 

O exame cuidadoso sobre as obras que virão a seguir dão conta do vasto, quase inabarcável conjunto de referências de Rafael Silveira, não obstante deve-se tentar, começando pelas antigas pinturas, desenhos, gravuras que os viajantes naturalistas faziam em nosso país; o culto aos circos e parques de diversões, desencadeadores da moderna indústria de entretenimento; a febre dos almanaques do século XIX, um dos auges da indústria gráfica, a irrupção do Art Noveau, e daí para os catálogos de produtos e os anúncios coloridos dos publicitários do pós 2a. Guerra norte-americano, o momento em que essa profissão disparou. Contam também os gibis com suas colorações puxadas para um rosa descorado e a suntuosidade cromática das graphic novels de hoje; os desenhos animados desde o nascimento desse gênero – Merrie Melodies, Disneys pré Mickey num arco que chega até Bob Esponja, do genial Hillenburg -, os filmes deliciosamente ancorados no exagero, de John Waters, Pedro Almodovar, Tim Burton, Roberto Rodrigues, Wes Anderson, Quentin Tarantino, entre outros; os empenhados em criar os seres mais horrendos e estapafúrdios, de que são representativos o tenebroso Alien proposto por Ridley Scott, o implacável Predator, de Mc Tiernan. 

 

Há, é claro, traços do Surrealismo, Pop e da Street Art. Mas os artistas ligados aos primeiros, como bons representantes da arte moderna, pretendiam ser originais. Já Rafael Silveira não, pelo contrário, as citações chegam por todo lado. Quanto aos Pop, sua premeditada confusão com o mundo real era tão intensa que sua crítica com frequência não era notada, enquanto nosso artista escapa do mundo pela fresta aberta que dá para o imaginário mais esfuziante. Já os da Street art, como diz o nome, pretendem em levar arte ao mundo, embora no mais das vezes levem visões água com açúcar ou denúncias literais, cuja maior qualidade formal deriva de sua aplicação em muros e empenas da cidade. 

 

Como bom pós-moderno, Rafael bebe água de todas fontes, como um rio que vai sendo engrossado pelos seus afluentes. Com inúmeras referências ao mundo do consumo e do entretenimento, ele aborda o cotidiano sob um ângulo que ultrapassa o tangível, enveredando num imaginário complexo, que tanto pode ser doce e afetuoso quanto escatológico e repulsivo. Suas intrincadas e detalhadas composições lembram certas crônicas do célebre neurocientista Oliver Sacks, sobre o homem que confundia sua mulher com um chapéu, ou os recorrentes e absurdos casos de pessoas que, atingidas por raios, adquiriam um súbito, inaudito e obsessivo pendor para a música.

 

É possível conjecturar a criança que foi nosso artista: enfiado em revistinhas de super-heróis, Jetsons, Tintim, Riquinho, um obstinado colecionador de álbuns de figurinhas, um apaixonado vasculhador de revistas antigas de toda espécie, um virtuoso montador –e pintor- dos monstrinhos da Revell, um habitué de circos e parques, tantos quanto sua mesada permitia. O prolongamento desse perfil aos dias de hoje com o garimpo sistemático em brechós, o escrutínio das barracas das feirinhas de antiguidade, as derivas nas horas vagas pelo e-bay e sites sucedâneos. Seja lá o que for, o que importa é que ele se converteu em algo mais que um estudioso de imagens, um erudito dos mais sofisticados e dotado do invulgarmente raro talento de se apropriar dos produtos imagéticos mais díspares para efetuar justaposições, sobreposições, bricolagens.

 

Seguindo por essa pista, uma questão que não se pode passar batido é o modo como ele próprio, com um estalar de dedos, transforma-se numa personagem de seu mundo. Neste livro há muitas provas disso, com várias fotos dele não só trabalhando mas efetivamente contracenando com suas obras. Um exemplo é a fotografia que o mostra em perfil sério, com seu bigodinho e óculos de armação preta e grossa bem a preceito, acusando sua filiação as estéticas surf, punk, ska, psychobilly, que ele cultivou e cultiva, cabeça e olhar discretamente apontada para o alto,  segurando a tela “Amor eterno”, 2017, de formato circular –tondo, em linguagem técnica-, vestido com uma camisa de manga curta estampada de flores arroxeadas sob fundo preto, que de um lado se prolonga nos desenhos do braço tatuado e do outro, a direita dele, ladeia-lhe o corpo. Na parede que lhe está por detrás, dividindo nossa atenção, um pôster com dois esqueletos: o primeiro, a bem dizer, um semi-esqueleto, uma ilustração semelhante as que existem nos livros de anatomia médica, com o corpo sem pele, ostentando a maior parte dos feixes de músculos; ao lado dele, do mesmo tamanho, um esqueleto inteiramente descarnado, só ossos. Do lado de fora, também encostado a parede, um esqueleto em tamanho natural, aí pelo metro e setenta. 

 

Quanto a tela que tem em mãos é protagonizada por uma caveira vermelha, portanto, mais uma peça da mesma família, com furos por onde saem artérias vermelhas e azuis, e algumas escassas veias menores e rebeldes semelhantes a cabelos despenteados ou que correm logo abaixo da pele. O artista olha para um lado enquanto a caveira está virada na direção contrária. A aparência incaracterística da caveira, amenizada pelo desalinhados das veias, ganha um tom definitivamente bem humorado em razão de um obsoleto conjunto de gola e gravata borboleta. Trata-se, conclui-se, de uma caveira de antigamente, do mesmo tempo dos óculos de armação escuras e grossas e dos bigodinhos finos. A borda da pintura tem o mesmo acabamento dos feixes musculares do esqueleto do pôster, como também sua coloração rósea-avermelhada. Graças a detalhes como esse percebe-se que a fotografia não tem nada de espontâneo, mas que foi apuradamente construída. Aqui a espontaneidade passa por revisões e depurações posteriores, do que são índice a fileira de pincéis minuciosamente dispostos lado a lado, os tubos e pequenas vasilhas com tinta, tudo sobre a mesa, no espaço deixado entre o braço esquerdo, o pôster e o esqueleto, ou seja, rodeado de temas ligados à morte.  

 

Uma introdução à história das imagens, segundo RS 

 

No Brasil… creio que minha obra dialoga com coisas muito antigas, de artistas que não são bem brasileiros, mas tem o Brasil como tema. Rugendas, Eckhout, Martius e Spix… nos internacionais gosto muito de Audubon, Gil Elvgren, Haddon Sundblon… além de muita influência das artes gráficas do século XIX. (entrevista do artista) 

 

As referências são um tanto quanto vagas, pois não se as veem claramente citadas nas obras do artista, enquanto outras, não relacionadas, o são, caso de Giuseppe Arcimboldo. É possível, contudo, especular as possíveis afinidades delas todas com a poética de Rafael Silveira. Que sua relação com vários passados é intensa isso já se esclarece no grupo musical que integra tocando trumpete, Os transtornados do ritmo antigo.

 

O ponto de partida mais recuado dentre as referências citadas é o pintor e ilustrador holandês Albert Eckout, membro da comitiva de Mauricio de Nassau, que viveu no nordeste brasileiro -Brasil Holandês- de 1636 à 1644. Foi dos primeiros europeus a fazer registros das exuberantes paisagens tropicais, contemplando a variedade da vegetação, elaborando belas e intrincadas naturezas mortas com as frutas locais, representando a arquitetura colonial, com seus casarios isolados em meio as plantações, apresentando os tipos étnicos que compunham a população, com destaque à série Tupi, uma admirável sequência de retratos de nativos montados em graciosas poses inspiradas nos retratos de europeus, com o que suas obras tinham o efeito bifurcado de dizer tanto daquilo que era representado quanto daquele elaborava a representação. E não é sempre assim? Claro, mas o mérito da obra de Eckout foi, ainda que inconscientemente, tornar isso insofismável; ensinou-nos que o olhar é uma construção cultural e que a realidade está subordinada à posição social do observador. No que se refere a RS, se a maestria na fatura pictórica no campo da representação do pintor holandês é um insumo para o seu trabalho, a percepção que a busca da objetividade não raro descamba para a fantasia, é outro. 

 

Antes de passar à segunda fonte nomeada pelo artista, não se pode resistir a tornar explicito senão seu débito consciente, sua sintonia com a obra de Arcimboldo, o gênio italiano, a rigor um surrealista avant la léttre que fazia uso dos elementos envolvidos numa determinada profissão para representar o rosto da pessoa que o representava. Frutas para o Fruteiro, hortaliças para o Hortelão, carnes para o Açougueiro. Rafael Silveira dispõe de destreza semelhante, patente não só no recorrente preenchimento dos contornos de um rosto masculino ou feminino, com aves, insetos, peixes etc, todos devidamente harmonizados com as paisagens que lhes vão por detrás. O procedimento arcimboldiano fica mais claro pela desenvoltura com que solda a parte de um objeto ou ser a outro para formar um terceiro. Tal como se dá em “Signori Cuori”, de 2015, um homem cuja cabeça, adornada com um óculos, é um ninho perfeitamente composto por fibras vegetais, tendo ao alto, nele pousado, o mesmo pássaro de corpo vermelho já descrito, com uma artéria azulada saindo por cima de seu dorso e outras duas vermelhas saindo por debaixo. “Transtornado”, também de 2015, um retrato cujo rosto está encoberto, talvez revestido seja mais preciso dizer, estaria mais próximo ainda de Arcimboldo, se o propósito das flores, folhas e ramos não fosse estabelecer a mimese de nariz, boca, olhos, bochechas, como se dá com as pinturas do mestre italiano. Por fim, para ficar por aqui, “O infinito singular”, de 2017, onde um globo ocular inscrustado numa planta forma o olho de uma figura cujo perfil é definido pelo desenho da moldura.

 

A segunda fonte nomeada compreende os dois naturalistas, eminentes cientistas alemães, Carl Friedrich Philipp von Martius, médico, botânico, antropólogo, e Johann Baptist von Spix, médico e zoólogo. Juntos, em 1817, embrenharam-se no Brasil numa viagem de três anos a mando do rei da Bavaria, Maximilian I Joseph, começando pelo Rio de Janeiro, passando por São Paulo e Minas Gerais e finalizando na Amazônia, subindo rio acima até suas cabeceiras no Peru. Voltaram com 6500 plantas, 85 espécimes de mamíferos, 150 de peixes e anfíbios, 350 de aves e 2700 insetos, além de pilhas de desenhos e aquarelas com vistas pormenorizadas de plantas de toda sorte, de árvores a pequenos arbustos, detalhes de folhas e pétalas –as bainhas, pecíolos, nervuras, limbo e epiderme- além de bichos de todos os tamanhos, e a estupenda variedades de insetos deste país, a imensa maioria desconhecida do mundo científico europeu, das sociedades botânicas e zoológicas. As minuciosas ilustrações acompanhavam e aperfeiçoaram as convenções de representação, apanhando a vasta fauna em vistas distintas. É fácil entender o impacto de pessoas do mundo inteiro, especialistas ou não, quando do primeiro contato com esse universo descortinado por esses naturalistas. Certos registros de animais e insetos superavam a mais desatada imaginação; a vista de detalhes ampliados divulgava monstruosidades insuspeitas. A transposição para uma escala aumentada, tornava uma simples pulga num parâmetro para a construção de seres estranhos. 

 

O romancista e ensaísta Alejo Carpentier argumentava que o nascimento da literatura latino-americana deu-se não por escritores nascidos nela, mas por quem tinha por objetivo sua descrição. A natureza luxuriante, flora e fauna virtualmente incontabilizável, a atmosfera dotada de uma luminosidade incomum, insuportável para alguns pintores europeus, como para o francês Nicolas-Antoine Taunay, segundo o aclarador O sol do Brasil, de Lilia Schwarcz. Não bastasse, ainda segundo Lilia Schwarcz no mesmo estudo, o contato com o novo mundo ““andava muito além do que os olhos podiam ver ou a razão admitir”, alimentando narrativas extravagantes de uma quantidade considerável de viajantes, em tudo imaginárias ou até sobrenaturais”. A experiência com o Novo Mundo, obrigou aqueles que aqui aportaram à busca/invenção de novos vocábulos, sintaxes, enfim, novas estratégias no âmbito das linguagem. 

 

A análise das pinturas e desenhos de Rafael Silveira, nas quais pululam plantas –arbustos, flores e árvores-, bichos, insetos e vísceras entre outros elementos orgânicos sugerem longas horas passadas diante de produtos dessa natureza, nas quais pode-se incluir os apurados desenhos de vegetais da britânica Margaret Mee, o celebrado e avantajado Livro de pássaros de John James Audubon, que nosso artista mantém em seu estúdio sobre um porta livro, até o fantasioso artista norte-americano, Walton Ford, inspirados em histórias folclóricas, animais em situações fantásticas ou representados de modo exuberante. Borboletas no jardim, também de 2017, radicaliza os retratos nos quais os contornos são vaporosos e esfumados ainda assim definidores de campos para a composição de arranjos com componentes da natureza, apresentando em lugar do rosto, brotando da gola pronunciada de uma camisa branca, recoberta por um caso marrom com estampa de oncinhas, um ramalhetes de flores que se abrem com a espontaneidade característica a esses arranjos, encimado por um chapéu.  

 

Por último, mencione-se a produção do grande pintor alemão, Johann Moritz Rugendas que na trilha dos naturalistas von Martius e Spix, veio dar com os costados no Brasil em 1822, empregado pelo Barão von Langsdorff, na expedição que leva seu nome. Ademais de ter sido o artista que mais viajou por países da America Latina, por suas qualidades plásticas, sua obra, de extração romântica, sem a exatidão dos seus colegas naturalista, espraiada em paisagens, cenas dos cotidianos de todos extratos sociais, além de uma grande quantidade de retratos, é considerada o mais importante do gênero no século XIX.

 

Como avaliar o impacto dessas obras, sobretudo as publicações que se seguiram ao retorno de Spix & Martius, os detalhes mais ínfimos revelados em escala acessíveis a estudiosos além da ampla plateia de diletantes e simples curiosos pelo vertiginoso assomo de informações surpreendentes trazidos à luz pelo trabalho dos cientistas de linhagem positivista? Um espectro de detalhes da matéria que compõem a vida, situados entre o maravilhoso e o monstruoso, foram finalmente revelados. Os desenhos, aquarelas e pinturas realizados com o auxílio de lentes e aumento e microscópicos à mão, provocou um impacto semelhante ao dos telescópios desenvolvidos por Galileu. As sucessivas edições e reimpressões dessas obras espalharam-se pelo mundo todo, chegando até hoje, emulando centenas de artistas e ilustradores.

 

Fechando os tributos de Rafael Silveira às fontes históricas mais distantes, é imperativo mencionar o Art Noveau, a versão francesa de uma onda que varreu a Europa na virada do século XIX para o XX, e que buscou dar uma qualidade formal mais orgânica, inspirada na natureza, aos objetos produzidos que vinham sendo produzidos pela indústria. Combatidos pelos modernos pela cifra ornamental, devemos a essa corrente o elogio tanto à linha curva quanto ao fragmento, ao caco, presentes em obras como a de William Morris, Victor Horta, Hector Guimard,e Antoni Gaudi. Os acabamentos apurados de formas complexas, as volutas, os serpentinados, as circunvoluções, foram, em alguns casos, desenvolvidos ao paroxismo, efetuaram uma retomada do Barroco mas em nova chave e aplicados em objetos prosaicos: levaram os mistérios dos organismos às xicaras, colheres, abajures, até edifícios. 

 

O mundo alucinante de Rafael Silveira

 

Coleciono paletas de cores. Elas podem vir de uma foto, uma litografia antiga, uma embalagem de fósforo indiano, uma capa de HQ, um cartaz de filme… as fontes são as mais diversas. É importante para o artista ter uma pesquisa visual constante. Sou obsessivo com isso, faço por prazer. (entrevista do artista)

 

O imaginário desenfreado de Rafael Silveira vale-se sobretudo de algumas das fontes históricas mencionadas, para se aplicar fartamente na produção que se seguiu às 1a. e 2a. Guerra Mundial, especialmente a norte-americana. Aproveitando-se de um público imenso a ser cooptado pela expansão de produtos, um mundo povoado por pessoas traumatizada pela experiência direta e indireta de massacres, carentes de afeto e noticias de um mundo ameno, desejosa de escapes de uma realidade áspera, fosse ele um circo, um parque diversões, uma sala de cinema, gibi ou ainda a propaganda do american way of life, publicitários, cineastas, designers, escritores e artistas envolvidos com a indústria do entretenimento, tendo por base o desenvolvimento de tecnologias gráficas, design de produto e gráfico, juntaram-se nesse empreendimento. 

 

A indústria do entretenimento – O Circo e o Parque de diversões

 

Rafael Silveira é obsessivamente devotado a esses períodos e suas obras, e neles, acima de tudo, esplendiam circos e parques de diversões. Circos como Ringling Bros. and Barnum & Bailey Circus, o Cirque du Soleil da 1a metade do século XX, parques como o fabuloso Coney Island, destruído por um incêndio em 1911. Circos e parques de diversão nada mais são que a versão ampliada dos antigos Gabinetes de Curiosidades, as Wunderkammern, as coleções que floresceram entre os séculos XVI e XVIII, quando da grande expansão comercial; a coleta ou a rapinagem pura e simples, das explorações e descobrimentos, que reuniam toda sorte de objetos raros ou estranhos e basicamente eram divididos em quatro categorias: a naturalia, dedicada aos seres e objetos naturais; a exótica, plantas e animais exóticos; artificialia, objetos criados ou modificados pela mão humana; scientifica, onde eram reunidos os instrumentos científicos.

 

Dentro do arco de variedades contidas num Gabinete de Curiosidades, as aberrações genéticas tinham espaço garantido. Uma das heranças deixadas ao circo, “o maior espetáculo da terra”, pelos Gabinetes, foi não só a incorporação de animais domesticados e de uma farta demonstração do que o corpo humano poderia fazer -as atrevidas acrobacias em trapézios ou montado num cavalo-, como também a exposição de pessoas que, em razão de um mal apresentado no nascimento, haviam sido abandonadas por suas famílias. A famosa mulher barbada, problema passível de ser resolvido pela medicina moderna e contemporânea, encontrava no olhar dos curiosos uma de suas poucas possibilidades de renda. O circo de Phineas Barnum, o Barnum & Bailey, citado acima, que chegou a ser o maior circo do mundo, tinha na sua programação um segmento intitulado Freak Show, no Brasil, Circo dos Horrores

 

Se os circos afinam-se com a Exótica e a Naturalia, os Parques de diversões pendem para Artificialia. Há que se considerar ainda que as Sala dos espelhos, o tiro ao alvo, a montanha russa, combinava produtos alinhados com a Artificialia e com Scientifica, enquanto o Trem Fantasma dava margem ao susto e ao medo. Em qualquer caso, graças a essas instituições da indústria do entretenimento, as pessoas, armadas de pipocas, sorvetes e maçãs do amor, gozavam a vida, momentaneamente deslembrados dos problemas cotidianos.  

 

Cornucópia de fantasias e mistérios 

 

O método de Rafael Silveira consiste em juntar elementos extraviados, díspares  entre si, percebendo e acentuando suas sinonímias e homonomínias, procedimento poético que atravessa seus desenhos, pinturas, esculturas e instalações, conferindo ao conjunto esse ar de versão atualizada de um Gabinete de Curiosidades. Não foi por outro motivo que sua exposição mais recente recebeu o título de Circonjecturas

 

A entrada não dava margem a dúvidas: um corredor iluminado com luz negra, cuidava em ressaltar os seis enormes pares de óculos, todos eles com molduras pintadas de um rosa fosforescentes, tendo ao centro de cada lente uma espécie de pupila verde que se expandia em círculos concêntricos, círculos que giravam a medida em que o visitante avançava. O efeito hipnótico, a rigor semelhante ao cinema de antigamente quando queria mostrar o efeito de hipnose sobre alguém, preparava para o que viria adiante.  

 

O tom esmaecido das impressões de antigamente, encontráveis nos livros infantis ilustrados, em revistas, rótulos e cartazes, longe da vocação hiper-realista das imagens de agora, são pretexto para elaboradas explorações cromáticas. O colecionista de paletas cores mostra-se um leitor exímio e respeitoso quanto ao trabalho de seus antecessores. 

 

Fanny and funny, Doce ilusão, Falling in love, todos de 2009, possuem cores extraídas do estudo acurado das imagens maliciosas e sensuais de mulheres seminuas, surpreendidas ou falsamente surpreendidas em poses sugestivas. Eram as pinups, como ficaram conhecidas, sobretudo depois que chegaram ao cinema, do norte-americano Gil Elgreen. Produzidas a partir de 1937, um sem número delas enfeitaram os narizes dos aviões –caças e bombardeiros- da 2a. Guerra Mundial, e um número muito maior ilustravam os calendários que enchiam as vistas dos frentistas de postos de gasolina, borracheiros, oficinas mecânicas e sucedâneos.   

 

A luxúria das mulheres de Elgreen como as de seu mestre, o impagável Haddon Sundblon, são revisitadas por nosso artista que se empenha em rebaixar a belezas de seus rostos, o torneado perfeito de seus corpos, apresentando-lhes em jogos de escalas estapafúrdias, fazendo-lhes brotar e fundir um incrível rol de imagens distorcidas. Caras, carros, cataratas, balões, sorvetes, flores, personagens de contos de fada, de historinha em quadrinhos, insetos e pássaros, as indefectíveis caveiras, pululam por todos os poros, conduzindo nosso olhar a uma deambulação por versões contemporâneas do Jardins das delícias de Bosch.

 

Em vários casos sequer as molduras das pinturas de Rafael Silveira passam incólumes. A princípio simples mas ricamente ornamentada, como Naturália, de 2011, elas chegam a invadir as pinturas compondo com elas, caso de Believe, de 2014, uma figura humana cadavérica cuja moldura de madeira define seu contorno, além de olhos, sobrancelhas, nariz e boca, e das peças integrantes da série Somos os insetos do Cosmos, de 2016. Um dos pontos altos dessa essa estratégia de garantir um lugar ativo, verdadeiramente protagonista da moldura, está em Infinito singular, de 2017, uma luxuriante barafunda de seres.

 

A imaginação febril de Rafael Silveira não descansa e sua associação com a designer Flávia Itiberê, sua companheira, abriu-lhe novas e férteis perspectivas. Prova comovente disso, é Intangível, de 2017. Inspirada num suntuoso vestido de penas brancas, parcialmente recoberto por um corpete preto de base rendada, o artista vestiu um manequim e colocou-lhe uma cabeça de cisne. A tela, doada ao Museu Oscar Niemeyer depois de sua grande individual em 2017, foi apresentada durante meses num espaço existente perto da saída, reservado a obras especiais, acompanhado da “mulher com cabeça de cisne”, devidamente instalada numa vitrine, e de uma sequência de fotografias documentando vários passos do processo. Com isso a curador do museu, o autor deste texto, quis garantir que os visitantes deixassem o museu envoltos numa atmosfera de sonho.

 

Agnaldo Farias