O neon e a cultura da luz

O gás neon serve como condutor de poesia nas instalações do brasileiro Ale Jordão.
Entre a iluminação dos ambientes e a sinalização dos espaços, o artista aproveita a memória afetiva que se agrega a cada peça feita com neon.

 

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O artista com instalação “Carroceiro” no Centro Cultural São Paulo, 2017

A memória do consumo e do entretenimento está arraigada à simbologia dos letreiros de neon, assim como sua marca no urbanismo das cidades, onde caracterizou historicamente territórios afetivos pelo mundo todo, como Time Square e China Town, em Nova Iorque ou a Liberdade e o Baixo Augusta, em São Paulo.
Dessas memórias se vale o artista para produzir um pensamento crítico, criando emaranhados de letras, logos e resíduos de propagandas imaginárias que se entrelaçam a amalgamam para formar estruturas de luz.
Essas estruturas estão prontas para se transformar em ocupações interativas com o uso de sensores e temporizadores para exposições indoor e outdoor, contribuindo para uma lúdica interação com os públicos mais diversos. O colorido dos gases e vidros policromados criam efeitos pictóricos surpreendentes e vibrantes quando vistos em movimento, quando se dá a volta em torno das montagens escultóricas de Jordão, sejam das esferas gigantes ou das miniaturas.

 

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Instalação de Alê Jordão para a exposição I Love SP, na Choque em 2019

 

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Rápida história do NEON e por que Jordão começou a fazer do neon seu principal material para as esculturas

Também conhecido por “luz de fogo” , o gás neon foi descoberto em 1898. Um elemento raro que, quando em contato com impulsos elétricos emite uma cor vermelho vibrante. No começo do Século, as cidades ainda eram iluminadas por lampiões e as lâmpadas elétricas não haviam se popularizado. Por esse motivo, cientistas se debruçaram nas possibilidades que o novo gás nobre poderia proporcionar no campo da iluminação pública e das casas. Mas sua forte coloração avermelhada limitava o seu uso. Só em 1923, ele foi usado para um letreiro promocional da Fábrica de automóveis Packard, em Los Angeles e o sucesso foi imediato. Assim, o neon encontrou seu lugar e passou a  conquistar corações. Os letreiros de neon em frente a lojas, hotéis e postos de gasolina foram acendendo a cada esquina, desde então.

 

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O gás neon é injetado dentro de tubos de vidro e, quando recebe uma carga elétrica ele acende e se ilumina. Se a corrente é desligada, o gás se apaga, o que permite que se crie designs que sugerem movimento – como o clássico painel com o cowboy que tira e põe o chapéu. Os desenhos simples ou intrincados funcionam bem sob chuva e, por isso, rapidamente, se transformaram em coqueluche, principalmente nos Estados Unidos. A transformação de Las Vegas ou Times Square nos cartões postais mais importantes de todos os tempos muito se deve às qualidades lúdicas do neon. Assim também, Toquio, Hong Kong e Shangai se tornaram cidades engajadas no onírico universo do neon e suas extravagâncias visuais urbanas.

 

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Estande da Choque na SParte 2018

 

A palavra neon vem do grego e significa novo. O gás vermelho-fogo – que foi rebatizado de neônio – tem um irmão bastardo chamado argônio, cuja coloração branca permite que se crie outras cores ao ser colocado dentro de tubos de vidros verdes, azuis ou amarelos. Logo se descobriu que o pó “. ” inserido dentro do tubo de vidro também permite uma iluminação colorida. Assim, no auge do uso do neon, nos Anos 50, existiam 50 cores diferentes no mercado e, agora existem mais de cem tonalidades disponíveis.

 

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No entanto, o neon caiu em decadência… em parte por causa da quantidade massiva de propaganda feita com essa mídia, em parte com o advento de novas tecnologias de televisionamento, dos leds, laser e outras alternativas de light entertainment para o espaço público e e de light design para interiores.

Mas o neon não acabou, pois se leds podem ser programados e se os televisores ganharam escala colossal, os neons têm um apelo poético insubstituível e está gravado na nossa memória afetiva.

 

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Instalação Feira Parte 2019

 

O calor das luzes, a tonalidade e brilho das cores, a visualidade do gás vibrando nos tubos vidro são características que, quem teve contato, jamais esquece. E muitas cidades no mundo inteiro acabaram por manter preservadas algumas áreas típicas dedicadas aos letreiros de neons, notadamente as áreas teatrais, do meretrício e as “china towns” ao redor do mundo.

 

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Nova escultura auto-iluminada de Jordão

 

Em São Paulo, especialmente a Liberdade e o Baixo Augusta tiveram forte ligação com o neon em sua história radicalmente interrompida pela Lei Cidade Limpa, que aboliu a publicidade visual no espaço público em 2006.

A Lei não teve piedade com a identidade cultural desses bairros e  mandou retirar letreiros , até os clássicos , que davam charme às paisagens locais.

Quando os letreiros de neon começaram a desaparecer, assim como muitos paulistanos, o artista Alê Jordão sentiu fundo uma tristeza que precisava ser aplacada. Então, saiu recolhendo algumas peças desmontadas dos letreiros que mais gostava. A paixão se pronunciava e o artista decidiu conhecer oficinas que produziam esses letreiros. Acabou conhecendo o mestre Dagostini, responsável pela manipulação dos vídeos e gases, numa das pouquíssimas oficinas que resistiram ao desmonte radical do negócio do neon.

 

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Exposição Iluminata , 2017

 

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A intimidade com as técnicas de coloração do gás e a modelagem do vidro fazem do processo criativo, uma aventura visual deslumbrante. A fragilidade do vidro que, derretido pelo calor do maçarico vai-se moldando, os tubos de vidro alcalino que recebem camadas de pó luminescente de diversas cores. E o resultado surpreendente quando as cores se sobrepõem e se misturam.

A beleza do processo encantou ainda mais o artista, que passou a considerar o neon, seu principal meio de expressão.

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