Art Life Legacy coletiva in memoriam São

São ou Sãosão – como eu o conheci em 2005 – tinha o coração na frente, fazendo as vezes de parachoque. Essa emocionalidade era mesmo parte fundamental do composto delicado, temperado a gentileza e humor, do qual era forjada a sua identidade. Essa paisagem interior é a terra de onde germinaram as ideias que o artista soube cultivar e transformar em criações muito originais e marcantes até que sua trajetória ainda em momento de arranque fosse interrompida prematuramente.

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Destino.

 

É nesse contexto que eu escrevo palavras póstumas sobre São, artista que eu vinha acompanhando de perto e com o máximo interesse.

 

São nasceu em 1982 em Ourinhos, no interior de São Paulo, mas mudou-se cedo para a Barra Funda, bairro da Capital onde cresceu, estudou e deixou grande parte do seu portfólio, aberto ao público.

Primeiro, ainda na escola, formou um duo criativo com o colega de classe Leonardo Dellafuente e por volta de 2006 formaliza a parceria batizando-a com o nome de 6emeia.

Nuvens

Assinam juntos as “pinturas de bueiro”, espécie de categoria fundada pelo par de amigos, o que os distinguiu rapidamente dentro do universo da arte urbana, sendo frequentemente citado em livros, como Urban Interventions – Personal Projects In Public Spaces – Robert Klanten e Mattias Hubner – Editora Gestalten, 2010. Sua famosa imagem de figura com cigarro na mão, pintada sobre um bueiro e um cano, está definitivamente gravada na iconografia da street art global, uma das várias imagens que se tornou um item viral em toda a imprensa.

Desde o seu princípio o 6emeia focalizava o espaço urbano com um olho no mobiliário urbano e outro na cidade integra, formada pela casca grossa e cimentada de sua superfície e pelo miolo mole e acalorado que é o amálgama humano. Seu processo de trabalho consistia em intervir sobre peças do mobiliário urbano com pinturas simples e imagens sintéticas. Na Barra Funda, 6emeia produziu inúmeras séries de intervenções que em seu conjunto, mapearam diversos caminhos pelo bairro. A grande série de bueiros chegou a ser usada num curso de arquitetura e urbanismo, para ilustrar o “caminho das águas pluviais” desse bairro que é constantemente castigado por fortes enchentes e alagamentos. Uma série da qual me lembro com especial carinho foi a de instalações sobre postes da Rua do Bosque, uma das principais vias da Barra Funda. A série consistiu de 8 pequenos objetos escultóricos que carregavam uma pena colorida numa das extremidades e uma pequena lâmpada elétrica na outra, formando uma figura de pássaro (que remetia ao personagem “Lampadinha” do Professor Pardal de Walt Disney).

O domínio da linguagem humorística não era mera casualidade e, sim, um árduo exercício permanente do fazer público, de ouvir o retorno da audiência, acertar o tom da piada, compor a frase com humor no volume correto, mais próximo da ironia do que do sarcasmo ou do escracho.

Esse espírito objetivo e bem humorado é algo que faz muita diferença quando o público é mais jovem. Por isso, o trabalho do 6emeia teve grande sucesso quando aliado a projetos educativos. A dupla frequentemente administrava oficinas em escolas e a participação de estudantes sempre foi muito ativa e intensa.

 

Nas palavras dos próprios artistas: “Na rua, a mensagem tem que ser direta e reta. Tem que pegar no estômago e fazer sentir o golpe”.

 

Além de fazer parte do 6emeia, São desenvolvia trabalho solo, através do qual especializava-se em pintura mural. Trabalhando com tinta acrílica diretamente sobre paredes, o artista usava pinceis e rolos para construir um figurativismo bastante geometrizado, quase chegando à abstração. O tratamento seco e chapado das massas de cor criavam uma atmosfera bem mais séria e circunspecta para o murais do que a dos trabalhos do 6emeia.

São pesquisava um certo modo cubista de abordagem em relação à figura humana, o que resultava em pinturas muito interessantes, devido à sua escala arquitetônica. Por exemplo, numa fachada de casa pintada pelo artista, elementos, como uma janela ou um friso decorativo eram sempre aproveitados e incorporados, trazendo para o trabalho suas fornas e texturas salientes.

Recentemente, São mostrava os primeiros resultados de apaixonada pesquisa sobre as colagens coloridas feitas por Matisse em seus derradeiros anos de vida. Dessa fase estaria surgindo certamente alguns desdobramentos importantes, em particular sobre a economia das formas e uma abstração cada vez mais rigorosa, provavelmente mais arquitetônica e espacial.

 

Um legado que iluminará para sempre nossas memórias.

Texto: Baixo Ribeiro

Homenagem ao artista SÃO do 6emeia

Dia 19 de outubro a Choque Cultural abre exposição em memória de São, artista da dupla 6emeia. Serão expostas 26 obras de artistas-amigos-do-São.

100% da arrecadação com vendas da exposição será entregue diretamente para a família do artista.

A exposição fica aberta até o dia 30 de outubro. Horário de atendimento: De Terça a Sábado, das 12 às 17 horas